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Bairro de Bono em Dublin mostra que o mercado imobiliário mais quente do mundo está esfriando

23/04/2015 14h57

Donal Griffin (Bloomberg) -- Para Tom Kelly, 68, morador de um bairro de classe alta no litoral sul de Dublin, o mercado imobiliário mais quente do mundo está começando a esfriar no pior momento.

Em outubro, Kelly e sua esposa colocaram à venda sua casa de cinco quartos por 1,45 milhão de euros (US$ 1,6 milhão). Depois de seis meses e de um abatimento de 14 por cento no preço, o imóvel ainda não foi vendido.

"Se tivéssemos entrado no mercado um ano antes, já teríamos vendido agora", disse Kelly, que mora em Monkstown, um subúrbio de Dublin. "De repente, no final do ano passado, o mercado começou a morrer".

Cinco anos depois de o colapso de seu mercado imobiliário ter obrigado a Irlanda a seguir os passos da Grécia e buscar um resgate internacional, o Banco Central do país está acabando com a agitação dos preços de imóveis novos ao estabelecer limites para hipotecas.

Depois de ter crescido acima do ritmo mundial no ano passado, os preços dos imóveis na Irlanda caíram em janeiro e fevereiro, incluindo declínios na chamada Riviera de Dublin, uma região de bairros de classe alta como Monkstown, Dalkey e Killiney, onde mora Bono, a estrela do U2.

"Sem dúvida, o ritmo da inflação caiu de um precipício", disse Ivan Gaine, diretor de imóveis novos e mercados de capitais em Sherry Fitzgerald, um dos maiores agentes imobiliários do país. "O ano passado foi duro e rápido demais".

Mercado rico

O mercado de imóveis residenciais na Irlanda cresceu um 16 por cento anual em dezembro, o maior avanço em um ranking feito pela Global Property Guide. Os preços passaram no ano passado pelo rali mais acelerado desde 2005, dois anos antes do início da quebra do mercado em 2007.

O pico dos preços durante 2014 deixou as casas fora do alcance de muitos aspirantes a compradores. O desemprego esteve acima dos 10 por cento desde 2009, e os salários por hora subiram pouco desde 2008, embora a economia esteja dando sinais de recuperação.

As restrições a hipotecas implementadas em janeiro, junto com a abolição no final do ano passado de uma isenção de impostos para que investidores comprassem casas, também provocaram uma queda na demanda.

Os preços das casas caíram cerca de 2 por cento em janeiro e fevereiro, disse o órgão de estatísticas. Em Dublin, onde cerca de 5.000 residências estão à venda, quase 500 vendedores mudaram o preço pedido até o momento em abril, de acordo com dados do site de vendas de propriedades MyHome.ie. Cerca de 80 por cento destas mudanças foram negativas, mostram os dados.

Dalkey, um bairro a cerca de 5 quilômetros de Monkstown cujas ruas estreitas estão cheias de bares e restaurantes, é o lar de algumas das pessoas mais ricas da Irlanda. Bono mora perto e levou a primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, para jantar na região quando ela visitou Dublin em 2013 com as filhas.

Novos imóveis

Embora a Irlanda não pareça estar à beira de outra crise imobiliária, ninguém espera que os ganhos do ano passado se repitam. A Moody's Investors Service previu no começo deste mês que os preços vão subir entre 5 por cento e 10 por cento em 2015. Rob Kitchin, professor do Instituto Nacional de Análise Regional e Espacial na cidade de Maynooth, disse que os valores não vão cair mais do que 3 por cento.

Os construtores completaram cerca de 11.000 propriedades na Irlanda no ano passado e 8.300 em 2013, que foi o número mais baixo em mais de quatro décadas, de acordo com os registros. Em média, 30.000 casas por ano foram construídas desde a década de 1970.

Além disso, o desemprego está caindo, pois várias empresas, como a Apple Inc. e a Twitter Inc., estão contratando na Irlanda e os emigrantes estão começando a voltar. Os aluguéis estão aumentando, o que atrai investidores estrangeiros para o mercado irlandês.

Enquanto isso, Tom Kelly talvez tenha que esperar um pouco mais para que os compradores cheguem até sua casa, que pertence à família há 70 anos. O imóvel está ligado a um espaço comercial que ele e sua esposa usaram para abrigar uma empresa de lavanderia.

"É assim que o mercado funciona", disse Kelly. "Não dá para forçar alguém a comprar".

Título em inglês: 'Bono's Dublin Neighborhood Shows World's Hottest Market Cooling'

Para entrar em contato com o repórter: Donal Griffin Dublin dgriffin10@bloomberg.net

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