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Mercado revê aperto da Selic após mudança na Fazenda

Josué Leonel

(Bloomberg) -- O mercado de juros começa o ano revendo suas apostas. Os investidores ainda projetam alta das taxas, mas sem o rigor que vinha sendo precificado pelos contratos futuros até dezembro. A mudança ocorre em meio à leitura de que, com o novo comando no Ministério da Fazenda, agora sob gestão de Nelson Barbosa, e em meio à expectativa de agravamento da recessão, o Banco Central pode se ver encorajado a ser mais moderado. Há ainda quem considere que o BC pode até mesmo não elevar a Selic, apesar da sinalização vista no Copom anterior.

O mercado passou a prever nesta semana uma alta de 168 pontos-base para a Selic no 1º semestre do ano, o que representa uma elevação entre 1,50 e 1,75 ponto percentual. Ainda seria uma alta expressiva, mas menos dura do que a elevação de 226 pontos projetada em 11 de dezembro, quando o mercado vivia um momento de maior nervosismo diante da piora das expectativas para a inflação e o déficit público.

Com a mudança na Fazenda, o mercado passou a considerar que o BC poderá ser mais comedido na alta dos juros, diz Rodrigo Borges, diretor de renda fixa da Franklin Templeton no Brasil. "O Levy deixava o BC tranquilo para tomar suas decisões, diferentemente de Mantega, que sempre destacava que o juro estava alto. Com Barbosa, o mercado entende que há uma mudança na política econômica e que isso pode não ser compatível com juro alto."

Pelo menos um banco já projeta Selic estável no próximo Copom, contrastando com a aposta generalizada do mercado de juros, que ainda aponta alta. Cristiano Oliveira, economista- chefe do Banco Fibra, disse hoje em relatório que a taxa básica deve permanecer em 14,25% à medida que dados piores que os estimados de atividade e deterioração das expectativas devem impactar significativamente as projeções de inflação.

Borges, da Templeton, diz que o mercado exagerou nos prêmios de risco praticados até dezembro. A razão para este pessimismo, segundo ele, é que o investidor ficou ressabiado com a possibilidade de a economia ter uma performance ainda pior do que apontam as projeções dos economistas. Foi o que ocorreu em 2015, lembra, quando praticamente todos os indicadores da economia fecharam piores do que os analistas previam no início do ano.

Além do cenário externo turbulento, há ainda o processo de impeachment, que torna o panorama doméstico especialmente incerto, levando o investidor a incorporar mais risco nos preços dos ativos, diz Borges. Ou seja, o fato de em algum momento os contratos na BM&FBovespa estarem apontando 200 pontos de alta da Selic ou mais não significa que haja uma expectativa firme de que o BC realmente elevará tanto a Selic, mas sim que, diante das incertezas, o risco de que a alta ocorra não pode ser descartado.

Em 23 de dezembro, quando Barbosa já havia assumido a Fazenda, o diretor de política econômica do BC, Altamir Lopes, disse que o BC tem instrumentos para trazer a inflação para a meta, ferramentas estas que serão utilizadas quando e se o Copom julgar necessário. Para o executivo da Templeton, o BC, embora tenha sinalizado uma alta da Selic, não deixou este compromisso explícito. "Isso não está escrito na pedra." Borges pondera que mesmo alguns economistas de alto prestígio no mercado, como Affonso Celso Pastore, têm defendido que juro fique onde está. "Se o BC não subir, ele não estará indo contra todos os princípios ortodoxos."

O ministro da Fazenda disse hoje que o BC tem toda a autonomia para administrar a política monetária, especificamente a taxa de juros, da maneira adequada para controlar a inflação.

Mesmo chamando a atenção para o fato de a estabilidade da Selic não ser uma hipótese totalmente descartada, Borges, da Templeton, ainda vê como mais provável o BC subir a Selic em 0,50 ponto no próximo Copom. Ele lembra que, apesar de a recessão seguir se profundando e de o câmbio estar se desvalorizando menos recentemente, tem havido uma piora rápida das expectativas inflacionárias diante do déficit fiscal.

Para Borges, a melhor ferramenta para controlar as expectativas inflacionárias seria uma política fiscal com controle efetivo dos gastos públicos, e não o aperto monetário. Na falta da primeira, contudo, resta a segunda, que depende do BC.

Para entrar em contato com o repórter: Josué Leonel em São Paulo, jleonel@bloomberg.net Para entrar em contato com os editores responsáveis: Telma Marotto, tmarotto1@bloomberg.net Marisa Castellani, Helder Marinho

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