Crise cambial africana provoca divergência entre bancos centrais

Rene Vollgraaff, Moses Mozart Dzawu e Yinka Ibukun

(Bloomberg) - As maiores economias da África estão adotando abordagens opostas em relação à política monetária enquanto se empenham em lidar com a queda dos preços das commodities e a queda da confiança dos investidores.

África do Sul, Nigéria, Angola e Gana devem anunciar suas primeiras decisões do ano em relação à taxa de juros nesta semana em um ambiente complicado devido à desvalorização das moedas, ao aumento dos riscos de inflação e à deterioração do crescimento. Enquanto a baixa recorde do rand talvez obrigue as autoridades monetárias da África do Sul a tomar medidas mais enérgicas, a Nigéria deve dar continuidade à sua política mais flexível, de acordo com os analistas consultados pela Bloomberg.

As abordagens contrastantes remarcam as escolhas difíceis que os bancos centrais africanos estão sendo obrigados a fazer em relação à política econômica, pois suas moedas estão atravessando a pior turbulência dos mercados financeiros mundiais. Na Nigéria, a maior economia do continente, as preocupações com o crescimento e a estabilidade do naira superaram os riscos de inflação, enquanto que as pressões fiscais em Gana e uma crise provocada pelo petróleo em Angola impulsionaram uma desvalorização cambial e levaram a um aumento das taxas de juros.

"Uma nova queda dos preços das commodities, o ajuste da política monetária feito pelo Federal Reserve dos EUA e as condições climáticas desfavoráveis significam que a perspectiva de curto prazo para as moedas africanas é fraca", disse Jacques Verreynne, economista da NKC African Economics, com sede em Paarl, perto da Cidade do Cabo, em resposta enviada por e-mail a perguntas.

"Embora a perspectiva para o crescimento econômico seja bastante fraca em muitas partes do continente, os bancos centrais estão sendo pressionados a elevar as taxas de juros a fim de fixar as perspectivas de inflação", disse ele.

Riscos para o naira

O Banco de Gana deve começar as decisões monetárias da semana mantendo sua taxa de juros inalterada em 26 por cento nesta segunda-feira após três aumentos no ano passado, de acordo com sete dos dez economistas consultados pela Bloomberg. O Banco Central do Quênia também optou na semana passada por prolongar a pausa no ciclo de sua taxa de juros, mantendo-a em 11,5 por cento.

Na Nigéria, aumentam as pressões para que o diretor do Banco Central Godwin Emefiele desvalorize o naira e flexibilize os controles cambiais que estão prejudicando os negócios e piorando a perspectiva de crescimento no maior produtor de petróleo da África.

Ele surpreendeu os analistas do mercado na última reunião do Comitê de Política Monetária, em novembro, cortando a taxa básica de juros em 2 pontos percentuais, para 11 por cento, e ignorando os pedidos de desvalorização da moeda.

Vinte e um dos 22 economistas consultados pela Bloomberg projetam que Emefiele não modificará a taxa básica na terça-feira e alguns preveem um ajuste na cotação do naira.

Riscos de inflação

"Os temores são de que a moeda esteja sob pressão, que esteja desalinhada", disse Bismarck Rewane, CEO da Financial Derivatives Co., em entrevista por telefone, de Lagos, a capital comercial da Nigéria. "Gana e África do Sul já chegaram mais perto de um equilíbrio. A Nigéria não aceitou realmente que o preço da moeda esteja desequilibrado".

Enquanto o Banco Central da Nigéria praticamente fixou o naira a 197-199 por dólar desde março, o rand da África do Sul caiu cerca de 29 por cento e o cedi de Gana caiu quase 8 por cento no mesmo período. Autoridades em Angola, o maior produtor de petróleo da África subsaariana depois da Nigéria, desvalorizaram gradualmente o kwanza desde o ano passado.

A queda do rand para uma mínima recorde de 17,9169 por dólar no dia 11 de janeiro está aumentando a pressão inflacionária na África do Sul ao mesmo tempo em que a pior seca em mais de um século está aumentando o custo dos alimentos. A inflação acelerou para 5,2 por cento em dezembro e deve ultrapassar a faixa-meta do banco central, de 3 por cento a 6 por cento, neste ano. O rand avançava 0,2 por cento, para 16,4389, às 8h57 em Johannesburgo.

Isso poderia levar o Reserve Bank a aumentar a magnitude dos seus ajustes de juros de 25 pontos-base. A maioria dos 23 economistas consultados pela Bloomberg projeta um aumento das taxas nesta semana e 16 preveem que a taxa de recompra, de 6,25 por cento, será elevada em 50 pontos-base, pelo menos.

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