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Recessão no Brasil piora desempenho de títulos de grau especulativo na Europa

Luca Casiraghi e Paula Sambo

(Bloomberg) -- Os investidores europeus que estão concentrados nos riscos da China também deveriam prestar atenção ao Ocidente.

Mais da metade dos títulos de grau especulativo denominados em euros que tiveram o pior desempenho da região no ano passado foi vendida por empresas com operações no Brasil, superando até os que têm uma exposição indireta à China, de acordo com dados compilados pela agência de notícias Bloomberg.

Títulos vendidos pela varejista francesa Casino Guichard-Perrachon e pela empresa espanhola de engenharia Grupo Isolux Corsán, ambas ligadas à maior economia da América Latina, estão entre os 10 bilhões de euros (US$ 11 bilhões) em títulos com as maiores perdas.

Empresas europeias invadiram os mercados emergentes na tentativa de mitigar a crise de dívida soberana que enfrentavam em casa. O Brasil agora está entrando em sua mais profunda recessão de dois anos em mais de um século e o escândalo de corrupção cada vez mais abrangente envolvendo a Petrobras está minando qualquer esforço político para retomar o crescimento.

"Há uma sensação de que ainda não chegamos ao fundo do poço", disse Jacob Rappaport, head de mercados de equity da INTL FCStone Financial. "Quando se trata do Brasil, o risco é altíssimo".

As empresas europeias com operações no Brasil foram responsáveis por cerca de 6,5 bilhões de euros dos títulos de grau especulativo em euros que tiveram o pior desempenho no período de um ano encerrado no dia 21 de janeiro.

O valor se compara com os 4,7 bilhões de euros de notas pertencentes a empresas expostas à queda dos preços das commodities e, por extensão, à turbulência na China.

Os 750 milhões de euros em títulos híbridos da varejista francesa Casino Guichard caíram de 104 centavos há um ano para 71 centavos de euro na semana passada, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

A Casino expandiu suas operações no Brasil durante a crise de dívida europeia e registrou um crescimento de cerca de 10% a cada ano entre 2009 e 2012. A inflação de alimentos no país superou os 10% por seis meses consecutivos, desacelerando o crescimento das vendas.

"O Brasil deu apoio ao lucro da Casino enquanto a economia estava ruim na França, mas agora a situação se inverteu", disse Cyril Benayoun, analista de crédito, em Paris, da Exane Derivatives, especializada em opções e títulos conversíveis. "Deu tudo errado no Brasil nos últimos dois anos e ainda não podemos dizer que o pior já passou".

Perspectiva difícil

A economia do Brasil cresceu menos que a zona do euro em 2014 pela primeira vez desde 2001.

O Fundo Monetário Internacional prevê uma contração de 3,5% neste ano e estagnação no próximo, depois de uma recessão de 3,8% em 2015. A instituição citou o mal-estar do Brasil como um fator chave por trás de suas revisões negativas da perspectiva econômica mundial.

As empresas com operações no Brasil e com exposição às commodities estão sendo pressionadas dos dois lados.

A Vallourec, que produz tubos de aço para o setor de energia, está sofrendo com a desaceleração nos serviços de petróleo em todo o mundo e com o escândalo da Petrobras, sua cliente, que deve reduzir os investimentos em US$ 32 bilhões nos próximos cinco anos.

Os 400 milhões de euros de unsecured bonds da empresa com vencimento em agosto 2019 caíram de 107 centavos há um ano para 64 centavos de euro.

"A situação está difícil para os prestadores de serviços de petróleo, mas fica duas vezes mais complicada se você está trabalhando com a Petrobras", disse Adriano Pires, diretor da CBIE, consultoria de energia e infraestrutura com sede no Rio de Janeiro.

"A Petrobras está cortando investimentos e contratos em meio a uma dívida cada vez maior e ao mais amplo escândalo de corrupção da história do Brasil".

A Isolux, que investiu em linhas de transmissão elétrica e estradas com pedágio no Brasil, agora está cancelando projetos e vendendo ativos. A empresa espanhola de energia renovável Abengoa está enfrentando insolvência depois de não ter conseguido captar dinheiro para cobrir seus projetos brasileiros.

"Durante alguns anos, o Brasil foi muito atraente", disse Christof Stegmann, gerente da carteira de renda fixa da GAM Investment Management em Zurique, que administra 124 bilhões de francos suíços (US$ 122 bilhões). "A situação mudou muito agora com a recessão, a incerteza política e os escândalos de corrupção".

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