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Do carvão à codificação: mineradores americanos começam do zero

Tim Loh

(Bloomberg) -- Jim Ratliff trabalhou durante 14 anos nas minas do leste do Kentucky, nos EUA, perfurando buracos e explodindo dinamite para expor o carvão que move a vida em Appalachia há mais de um século.

Hoje, ele entra no escritório às 8 horas, se senta a uma mesa de metal e faz algo que, até o ano passado, era totalmente estranho para ele: codificação informática.

"Muitas pessoas acham que os mineradores de carvão não têm instrução", disse Ratliff, 38, com um cavanhaque ralo e braços fortes. "É um trabalho árduo, mas há engenheiros e equipamentos muito sofisticados. Você trabalha duro e com eficiência, e isso também se aplica à codificação".

Ele agora trabalha para a Bit Source, uma startup com sede em Pikeville, Kentucky, que quer mostrar que há vida depois do carvão para os milhares de veteranos do setor que perderam o emprego em uma crise sem precedentes, que já levou cinco grandes produtores a pedirem recuperação judicial. A Bit Source só contratou 10 codificadores, mas quase 1.000 responderam às ofertas de trabalho, porque se espalha a percepção em Appalachia de que o auge do carvão acabou. O que preenche essa lacuna é um desafio tão grande que candidatos à presidência dos EUA, como Hillary Clinton e Donald Trump, mencionaram as dificuldades do setor na campanha eleitoral.

"Temos muitos caipiras extremamente capacitados aqui", disse Rusty Justice, 57, um dos fundadores da Bit Source. "Queremos provar que podemos dirigir uma empresa de tecnologia nas montanhas do leste do Kentucky".

Poucos lugares estão tão imersos no conhecimento do carvão quanto Pikeville, uma cidade de 6.900 habitantes espremida em uma estreita brecha do Vale Big Sandy. Ao longo dos anos, os arredores de Pike County produziram mais quantidade desse combustível do que qualquer outra região do Kentucky. Em 1996, quando Ratliff ainda era adolescente e o pai dele trabalhava nas minas, os produtores locais extraíram 35,6 milhões de toneladas, um recorde estadual. Ele acabou seguindo os passos do pai nas minas.

O mercado de carvão começou a colapsar em 2011, quando o excedente mundial do combustível aumentou. Os preços caíram 75 por cento desde então e nenhum outro lugar foi tão afetado quanto Appalachia. A produção de Pike County despencou para 6,9 milhões de toneladas em 2015 e o emprego em mineração caiu para 1.285, cerca de um terço da quantidade de quatro anos antes. A crise eliminou pelo menos 26.000 empregos nos EUA, e o de Ratliff foi um deles.

Justice, que é da quarta geração de sua família a nascer em Pikeville, também foi afetado. Sua empresa de engenharia e escavação, Jigsaw Enterprises, perdeu 70 por cento da base de clientes, incluindo grandes mineradoras, como James River Coal, Alpha Natural Resources e Arch Coal, que entraram com pedido de recuperação judicial.

Diversificar

Tentando diversificar, Justice e seu sócio, M. Lynn Parrish, passaram alguns anos considerando distintos setores, dos parques solares e eólicos à agricultura. Eles então assistiram a uma apresentação sobre a crescente quantidade de codificadores em Kentucky que, em sua maioria, moram a três horas de distância a oeste no "triângulo dourado" de Louisville, Cincinnati e Lexington. Eles ganham salários iniciais de até US$ 70.000, semelhantes à compensação dos mineradores de carvão.

É claro que há uma grande diferença entre o Vale Big Sandy e o Vale do Silício. Para começar, Kentucky tem as velocidades de conexão à internet mais lentas dos EUA, de acordo com uma pesquisa da Akamai Technologies. E, em Appalachia, onde o carvão dominou por muito tempo e as comunidades estão separadas por quilômetros de montanhas, poucos governos se uniram para atrair empresas como Apple e Google. E pouca gente cresceu sonhando em trabalhar em alguma delas.

Isso está mudando aos poucos. Novas organizações regionais estão surgindo, como Shaping Our Appalachian Region, que tenta criar um espírito empreendedor na região leste de Kentucky que vá além do setor de energia. Em novembro, Hillary Clinton se comprometeu a construir uma infraestrutura "do século 21", como sistemas de água e acesso de banda larga nas cidades carvoeiras, se for eleita presidente.

"O setor do carvão está morrendo aqui", disse Ratliff. "Mas poderíamos ser as sementes de algo verdadeiramente especial".

 

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