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Banco do Brasil tem piores bonds CoCo do mundo

Filipe Pacheco e Chiara Vasarri

(Bloomberg) -- O Banco do Brasil tem apanhado no mercado de bonds muito em razão de sua forte ligação com o governo brasileiro.

As notas conhecidas como CoCo, que são títulos de dívida diretamente relacionados aos níveis de capital do banco, tiveram o pior desempenho entre 133 títulos CoCo similares denominados em euros ou dólares. Esses títulos são elegíveis a capital quando determinados indicadores caem demais. O montante de US$ 1,64 bilhão em bonds do banco vendido em 2012 teve perda de 25% em 2016, sete vezes a média para esses títulos.

O vínculo com o governo tem prejudicado o Banco do Brasil de duas formas: a primeira é que o Brasil, na tentativa de impulsionar o crescimento econômico, tem pressionado o banco a ampliar empréstimos mais arriscados e menos lucrativos. A outra é que com os problemas fiscais do Brasil, que provocaram sete cortes na classificação de crédito em menos de dois anos em meio à pior recessão em um século, os detentores de bonds estão menos confiantes de que o governo estará em posição de arcar com perdas se o banco passar por dificuldades.

"O mercado teme o aumento da taxa de inadimplência no Banco do Brasil porque o governo tem usado o banco para oferecer empréstimos baratos e tentar fazer a economia crescer novamente", disse Hersz Ferman, economista da Elite Corretora, no Rio de Janeiro. "Além disso, a economia está em profunda recessão".

A assessoria de imprensa do Banco do Brasil preferiu não comentar, citando o período de silêncio antes da divulgação do resultado do quarto trimestre. A assessoria de imprensa da Presidência não respondeu a um telefonema e a um e-mail em busca de comentário.

O Banco do Brasil reduzirá seu pagamento de dividendos em 2016 para 25% do lucro líquido, contra 40% no ano passado, segundo comunicado do banco ao mercado, enviado na terça-feira, após o fechamento do pregão.

O governo Dilma Rousseff ordenou que os bancos estatais Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES oferecessem até R$ 83 bilhões (US$ 20,4 bilhões) em crédito extra às empresas neste ano como medida contra a recessão e para evitar demissões.

A medida foi encarada como um sinal arriscado pelos investidores do Banco do Brasil, especialmente após o lucro do banco no terceiro trimestre, divulgado em novembro, ter ficado abaixo das estimativas de analistas, prejudicado pelas provisões maiores para empréstimos inadimplentes que aumentaram 40% em relação ao ano anterior. O retorno ajustado sobre ação, um indicador de lucratividade, caiu de 16,1% para 13,3%.

Enquanto a ligação do Banco do Brasil com o governo passa por escrutínio nunca visto, bonds CoCo em todo o mundo têm sido penalizado nos mercados pelo temor crescente em relação à perspectiva para o crescimento global e para a estabilidade do sistema financeiro. Os títulos, particularmente populares entre os bancos da Europa Ocidental como forma de levantar capital, são estruturados de forma a permitir que o banco suspenda o pagamento de juros quando enfrenta problemas (por isso o "contingente" no nome).

Os CoCos do Banco do Brasil estão em hierarquia mais baixa que as dívidas seniores ou subordinadas e o banco tem a possibilidade de escolher não fazer o pagamento de juros se o seu capital cai para um determinado nível, segundo a escritura de emissão das notas. Em um cenário ainda pior, as notas poderiam sofrer uma baixa permanente se a proporção de capital principal do banco cair para menos de 5,125% do montante de ativos ponderados pelo risco da instituição.

No fim de setembro esse nível estava em 8,07%. O Banco do Brasil teria que perder R$ 25,8 bilhões de seu capital principal para chegar ao limite para a baixa contábil das notas, segundo seus resultados mais recentes. O banco deverá divulgar seu relatório do quarto trimestre em 25 de fevereiro, antes da abertura dos mercados.

O JPMorgan informou em um relatório, em janeiro, que espera "um maior deterioramento da qualidade dos ativos" e uma geração de capital "mais fraca que a de seus pares" no Banco do Brasil devido à crise econômica e à crescente pressão do governo para a ampliação dos empréstimos.

"O banco precisa cumprir toda determinação que vem do governo, seja ela financeiramente razoável ou não", disse Klaus Spielkamp, chefe de renda fixa da corretora Bulltick em Miami, que começou a negociar bonds brasileiros em 1993. "Enquanto muitos bancos no Brasil estão anunciando cortes no crédito, o Banco do Brasil precisa continuar emprestando".

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