Pernod quer ampliar presença na África em meio a turbulências

Thomas Buckley

(Bloomberg) -- Alexandre Ricard não perdeu o sorriso quando ele entrou em uma taverna em Soweto e viu um dos uísques mais populares da Pernod Ricard -- em uma prateleira, atrás de grades de aço com lanças de ferro no topo.

O CEO tirou uma foto das medidas de segurança e da configuração precária com seu iPhone, agradeceu à mulher que estava atrás do balcão pelas boas-vindas e saiu para a rua sem asfalto.

"Precisamos estar aqui", disse Ricard, 43, durante uma visita a favelas, no mês passado, para ver dois dos mais de 2.000 bares improvisados, chamados "shebeens", para os quais a Pernod vende.

A segunda maior destilaria do mundo está mirando a África como o próximo grande mercado para seu uísque Jameson Irish e para a vodca Absolut, mais de 50 anos depois de a agora concorrente Diageo ter começado a produzir por lá. O gasto continental em bens de consumo deverá chegar a US$ 1,4 trilhão até 2020, segundo o McKinsey Global Institute. A África tem o potencial de se tornar tão importante quanto a Ásia, atualmente a maior região da Pernod Ricard em receita, diz a empresa.

Queda da confiança

O momento não é o ideal. A confiança do consumidor está caindo na África do Sul em um momento em que o país se aproxima do colapso econômico sob o governo do presidente Jacob Zuma, cujo mandato é marcado por escândalos de corrupção e pela forte queda dos bonds e da moeda do país. As condições para os negócios em Angola e na Nigéria se deterioraram com a queda de quase 70 por cento, desde 2012, do valor das exportações de petróleo -- único grande colaborador do desenvolvimento econômico da África Ocidental. A Pernod abriu subsidiárias em ambos os países naquele ano.

"Teria sido melhor investir antes, porque o ambiente está bastante confuso na África no momento", disse Victor Lopes, economista para a África do banco Standard Chartered em Londres, por telefone. O colapso do preço do petróleo prejudicou países como Angola, enquanto outras nações, como a Costa do Marfim e a Etiópia, estão "indo muito bem", disse ele.

A Pernod Ricard também enfrenta um adversário duro, a Diageo, fabricante do uísque Johnnie Walker e da vodca Smirnoff, com sede em Londres. Líder mundial, a Diageo vende para cerca de 20.000 shebeens apenas na África do Sul e domina a comercialização de destilados no continente como um todo. Sua participação por volume no mercado de destilados da região que abrange a África e o Oriente Médio é de 23 por cento, contra 5 por cento da Pernod, segundo a empresa de pesquisas Euromonitor.

"Se a Pernod quiser fazer frente à Diageo globalmente, precisa diminuir a diferença na África", disse Trevor Stirling, analista da Sanford C. Bernstein, por telefone.

Longo prazo

A Pernod diz estar preparada para o longo prazo, buscando o tipo de crescimento que permitiu à empresa expandir-se a partir de uma fusão entre duas famílias empresariais no sul da França, transformando-se em um conglomerado com um valor de mercado de 26 bilhões de euros (US$ 30 bilhões). A empresa investiu 420 milhões de euros na África e no Oriente Médio de 2010 para cá, menos do que o total de US$ 1 bilhão injetado pela Diageo, e contratou mais de 500 pessoas no continente.

A incursão da empresa na África surge em um momento em que sua concorrente está enfrentando um choque de realidade. Em janeiro, o CEO da Diageo, Ivan Menezes, sinalizou uma desaceleração na África para os investidores, um ano depois de dizer que o continente poderia um dia responder por 20 por cento das receitas da empresa. No mesmo mês, o Fundo Monetário Internacional reduziu suas projeções de crescimento econômico para a África subsaariana neste ano para 4 por cento e diminuiu a estimativa do ano que vem para 4,7 por cento.

"Estamos na parte difícil da curva no momento", disse John O'Keefe, presidente da divisão africana da Diageo, por telefone. "Estamos na África há muito tempo e aprendemos o que é necessário para operar ao longo dos ciclos econômicos".

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