Análise: Vale tem melhor minério de ferro. Mas quem compraria?

David Fickling

(Bloomberg) -- Se a Vale tivesse oferecido uma participação em suas minas de minério de ferro brasileiras há cinco anos, o mundo teria batido à sua porta. Atualmente, será mais difícil encontrar um comprador.

O problema não são os ativos. O enorme complexo de Carajás, na Amazônia, é a maior mina de minério de ferro do mundo e sua produção, da mais alta qualidade.

O produto é tão bom que compensa a distância da Vale em relação aos seus principais mercados de exportação, na Ásia, que adiciona cerca de US$ 14,10 de custos de frete a cada tonelada de minério de ferro, contra US$ 3,50 no caso de uma concorrente australiana como a Fortescue.

Não, o problema é a escassez de empresas famintas por aquisições no setor de minério de ferro.

Para quem está no negócio da mineração, o ideal é produzir commodities para as quais a demanda global supera a oferta disponível. Este não é o caso desta rocha cor de ferrugem.

As quatro maiores mineradoras mais que duplicaram sua produção na última década e não estão desacelerando muito --mesmo diante de um setor siderúrgico chinês que precisa encolher cerca de 20%, segundo a segunda maior siderúrgica do país.

A Vale não está ajudando nessa frente: seu complexo S11D, que deverá entrar em operação no final deste ano ao sul de Carajás, adicionará 90 milhões de toneladas extras por ano à oferta global.

Como nenhuma grande produtora de minério de ferro prevê déficits a curto prazo, os melhores candidatos a comprar uma participação em uma mina no momento são compradores estratégicos, como consumidores e investidores.

Este foi um modelo comum no passado: a Mitsui & Co., a Nippon Steel e a Sumitomo Metal Industries possuem quase metade do empreendimento Robe River da Rio Tinto, enquanto a Hunan Valin, uma usina chinesa, tirou a Fortescue de uma situação difícil em 2009 ao concordar com uma emissão de ações.

A Vale está conversando com mineradoras da Ásia a respeito da participação, disseram pessoas informadas sobre o assunto à Bloomberg News, mas muitos dos possíveis jogadores saíram contundidos de campo.

As maiores tradings do Japão, antes grandes compradoras em tempos de fragilidade, veem poucas perspectivas de recuperação das commodities.

As maiores empresas siderúrgicas e de mineração da China poderão, talvez, ter acesso à máquina mágica de financiamento do governo, mas, vistas como empresas normais, a maioria deve estar ocupada demais lambendo suas feridas para considerar uma aquisição.

A China Shenhua Energy, maior produtora de carvão do mundo em receita, seria uma possibilidade interessante.

É uma das poucas com um balanço suficiente para contemplar um negócio como esse; sua experiência na exploração e no transporte de commodities a granel seria uma opção conveniente para a Vale; e uma participação no setor de minério de ferro a ajudaria a equilibrar os riscos da queda do consumo do carvão para a geração de energia na China.

As siderúrgicas também podem dar atenção ao tema: as japonesas NSSMC e JFE e a sul-coreana Posco contam com a capacidade para fechar negócio, assim como a chinesa Baosteel, apesar de sua visão pessimista para a demanda.

E sempre existe a possibilidade de um grupo ganancioso como o HNA ou um fundo soberano de investimentos decidir que este é um bom momento para comprar ativos no setor de minério de ferro.

Contudo, analisando por qualquer ângulo, a Vale escolheu um mau momento para colocar o cartaz de "vende-se". Há cinco anos havia um mercado vendedor para ativos de minério de ferro. Agora os compradores estão em vantagem.

Essa coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e seus proprietários.

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