Bancos no Brasil adiam sofrimento estendendo prazo empréstimos

Cristiane Lucchesi e Francisco Marcelino

(Bloomberg) -- Os principais bancos brasileiros, impactados pelo aumento da inadimplência, tentaram evitar esse mesmo desfecho com a Oi, concedendo uma carência de pelo menos quatro anos para pagamentos de uma dívida de R$ 17 bilhões (US$ 5,1 bilhões).

Embora a Oi tenha acabado entrando com um pedido de recuperação judicial depois do fracasso das negociações com outros credores e acionistas, a extensão do vencimento de empréstimos tem sido a estratégia favorita dos bancos brasileiros para dar uma sobrevida aos tomadores de empréstimo.

A carteira de créditos renegociados no Banco do Brasil, maior banco do país em ativos, mais do que dobrou no primeiro trimestre em relação ao ano anterior, para R$ 22 bilhões.

As empresas estão tendo dificuldades para honrar suas dívidas em um momento em que o Brasil enfrenta a segunda contração econômica anual consecutiva, os preços das commodities continuam em baixa e o desemprego está aumentando.

Mesmo em meio a um aperto do crédito e aos juros altos, o prazo médio de vencimento dos empréstimos no País chegou a 49,7 meses em maio, o mais alto desde março de 2011, quando o Banco Central começou a série atual. Em maio do ano passado, o prazo médio era de 47,1 meses. Embora a prática de estender o vencimento dos empréstimos possa ajudar as empresas viáveis a se recuperarem, em muitos casos isso só posterga o sofrimento.

"Uma empresa só pode pagar a sua dívida quando está gerando lucro, e esse é exatamente o desafio principal no Brasil neste momento", disse Ricardo Mollo, professor do Insper em São Paulo. "Às vezes, aumentar o prazo de vencimento de uma dívida não é suficiente e os bancos podem estar apenas postergando seus problemas".

Extensão do prazo

A Gol Linhas Aéreas Inteligentes, segunda maior empresa aérea do Brasil por participação de mercado, está negociando com o Banco do Brasil e o Banco Bradesco para obter mais tempo para pagar cerca de R$ 1,05 bilhão em debêntures enquanto tenta reestruturar a dívida, de acordo com a empresa. As negociações não incluem propostas de reduzir o montante devido.

A Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais chegou a um acordo para estender para 10 anos o prazo de uma dívida de R$ 5,6 bilhões, com uma carência de três anos para o pagamento do principal, disse a empresa. Entre os credores estão o Banco do Brasil, o Bradesco, o Itaú Unibanco, o Banco Santander Brasil e o BNDES.

Acordos como esses estão aumentando os níveis de empréstimos renegociados nos maiores bancos do País. O Bradesco registrou um aumento de 18 por cento nesses empréstimos no primeiro trimestre, para R$ 13,1 bilhões, e no Itaú esse número subiu 17 por cento, para R$ 22,7 bilhões, com relação ao mesmo período do ano passado, segundo os balanços das empresas.

Os bancos estão sempre prontos a ajudar empresas em dificuldade para evitar seus próprios prejuízos e redução de capital. Agora que a Oi entrou com pedido de recuperação judicial, por exemplo, os bancos têm que provisionar pelo menos 30 por cento dos empréstimos sem garantia. A quantia pode chegar a 100% no terceiro trimestre se o processo de recuperação judicial fracassar, de acordo com Rafael Frade, analista do Bradesco BBI.

Segundo a legislação brasileira, uma redução no principal de um empréstimo, o chamado haircut, levaria os bancos a contabilizar perdas na mesma proporção, enquanto que o alongamento do prazo de um empréstimo não tem o mesmo efeito, disse Felipe Ribeiro da Luz Câmara, advogado do Milbank, Tweed, Hadley & McCloy LLP em São Paulo.

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