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Análise: Lições econômicas de países em desenvolvimento

Mohamed El-Erian

(Bloomberg) -- Desde o começo da crise financeira mundial indiquei que as economias avançadas deveriam aprender lições de política econômica com o mundo em desenvolvimento. Este argumento foi reforçado por dois acontecimentos na semana passada: a desestabilização da libra depois da decisão pelo Brexit no Reino Unido e os indícios de que os EUA agora têm menos influência sobre a curva de rendimento de seus títulos soberanos.

Durante décadas, três crenças fundamentais estruturaram nossa compreensão sobre as bases econômicas e financeiras da maioria dos países desenvolvidos: forças estruturais subjacentes tinham amadurecido e se tornado motores de mudança compreensíveis, transparentes e muito gradativos; as instituições eram estáveis e funcionavam bem; e essas duas bases sólidas poderiam suportar os caprichos dos ciclos políticos de curto prazo. Acreditava-se que as economias avançadas viviam em um "espaço cíclico" analítico, onde mudanças seculares e estruturais ocorriam de forma extremamente lenta.

Essa caracterização facilitou bastante o trabalho de analistas e autoridades econômicas, pelo menos aparentemente. Em vez de ter que lidar com questões estruturais muito mais complexas, a principal tarefa desses especialistas se resumiu a compreender e administrar os ciclos empresariais. Com o tempo, até mesmo a dinâmica do ciclo empresarial parecia passível de ser dominada, gerando a noção de persistentes economias "goldilocks" (nem muito quente, nem muito fria) e de "grande moderação".

Essa estrutura, no entanto, acabou sendo enganosa e perigosa, particularmente por minimizar ou ignorar quatro acontecimentos subjacentes importantes.

1. A necessidade de níveis cada vez maiores de dívida e de alavancagem para manter a sensação de estabilidade econômica e financeira, mesmo que superficialmente.

2. Investimentos inapropriados, cada vez maiores e que provocam mais distorção, em motores de crescimento e prosperidade artificiais e não em reais.

3. Agravamento do trio de desigualdades (renda, patrimônio e oportunidade).

4. Aumento da polarização política, que alimenta e é alimentada pela crescente desconfiança em relação ao establishment político, às elites empresariais e à opinião dos especialistas.

Está claro que durante a década anterior as bases estruturais dos países avançados começaram a retroceder para características que são mais predominantes nas economias emergentes, em particular nas que têm instituições fracas, bases econômicas e financeiras não suficientemente profundas, tecidos sociais instáveis e políticas confusas. No entanto, grande parte da mentalidade dos responsáveis pelas decisões econômicas continuou aferrando-se a uma concepção cíclica da economia.

A dependência excessiva da abordagem cíclica é a principal razão de analistas e responsáveis pela política econômica nas economias avançadas não terem acompanhado a realidade, especialmente no rescaldo da crise financeira global. Isso também explica por que a maioria dos governos ocidentais se decepcionou tantas vezes com os resultados econômicos, por que eles foram forçados frequentemente a reduzir suas expectativas e por que muitas vezes os resultados ficaram abaixo até mesmo dessas projeções reduzidas.

As consequências adversas não se restringem à análise excessivamente desequilibrada e às reações parciais de gestão econômica. Condições econômicas invariavelmente decepcionantes também alimentaram a polarização que, por sua vez, complicou a gestão econômica.

Não surpreende que as economias avançadas tenham vivido acontecimentos com os quais não estão acostumadas (e que, em alguns casos, são considerados improváveis ou até inconcebíveis), mas que são muito comuns no mundo em desenvolvimento. Os mais impressionantes são:

O novo normal de lentidão do crescimento econômico, que teima em persistir apesar de grandes estímulos da política monetária.

Altos níveis de subemprego e/ou desemprego.

O risco de que um número alarmante de jovens possa passar de desempregados a inadequados para o mercado de trabalho.

A crise de dívida da zona do euro.

Por isso, seria um bom conselho que as autoridades das economias avançadas fiquem mais abertas às lições do mundo em desenvolvimento. De fato, a semana passada deu ainda mais exemplos das condições estruturais estranhamente fluidas no Ocidente e, portanto, da necessidade de uma maior curiosidade intelectual e analítica.

A surpreendente decisão pelo Brexit levou volatilidade à libra, desancorada pela fluidez tanto na conta-corrente quanto na conta de capital da balança de pagamentos do Reino Unido. Repentinamente, ela introduziu uma complexidade estrutural nas relações comerciais do Reino Unido com seus parceiros comerciais mais importantes que, juntos, também constituem a maior região econômica do mundo. Ao mesmo tempo, uma das principais atrações para as empresas se estabelecerem no Reino Unido -- a capacidade de atender a toda a UE -- também está em jogo. Isso gera dúvidas sobre o futuro dos interesses estrangeiros implantados no Reino Unido e, de modo mais imediato, irá desacelerar a entrada de investimento direto e capital de carteira.

Esse tipo de incerteza, que é mais comum nas economias em desenvolvimento do que nas avançadas, poderia desestabilizar severamente a moeda. Além disso, esses acontecimentos estão ocorrendo em um momento em que o Banco da Inglaterra - surpreendentemente -- não tem medidas viáveis e eficazes de juros para estabilizar seus mercados de câmbio.

Os EUA também estão em uma situação incomum, embora muito menos extrema.

Como um país grande, os EUA tradicionalmente tiveram controle sobre seu destino econômico e financeiro. Apesar de ainda poder definir seu futuro econômico, o país agora tem menos controle sobre a curva de rendimento de seus títulos do Tesouro, que têm sido objeto de uma influência exterior excepcional.

Como consequência, nem o patamar dos juros dos EUA nem as avaliações relativas de diversos vencimentos dos títulos do Tesouro estão muito vinculados aos fundamentos da economia nacional. Em vez disso, os juros e os preços relativos são mais indicativos das perspectivas econômicas e monetárias da Europa (e, em menor grau, do Japão). Isso significa que o Fed precisa gastar uma quantidade extraordinária de tempo analisando acontecimentos externos e o modo em que eles afetam as variáveis domésticas.

Nenhum desses acontecimentos deve desaparecer em breve. Na verdade, devemos ver uma lista ainda maior de coisas improváveis e inconcebíveis acontecerem no mundo avançado. E os responsáveis pela política econômica ocidental terão uma necessidade ainda mais urgente de complementar sua concepção convencional da economia com conhecimentos resultantes das experiências do mundo em desenvolvimento.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial, da Bloomberg LP ou de seus proprietários.

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