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Opinião: A produtividade está em crise? Não nos EUA

Noah Smith

(Bloomberg) -- A queda da produtividade dos trabalhadores nos EUA tornou-se um dos principais temas da campanha presidencial, debatido na imprensa e entre economistas e candidatos. A produtividade do trabalho - medida pelo produto gerado por hora trabalhada - registrou a terceira contração trimestral consecutiva.

Kevin Drum, da publicação Mother Jones, é um dos muitos especialistas alertando para o tema:

O crescimento da produtividade é provavelmente o componente individual de maior importância para a atividade econômica nacional e seu nado cachorrinho não inspira muita confiança.

Eu não me preocupo, por vários motivos. Primeiramente, essa diminuição é perfeitamente normal, como mostra a história recente da produtividade do trabalho.

Pequenas quedas como na situação recente não são incomuns, mesmo em tempos de bonança econômica. A produtividade alcançou platôs entre 1993 e 1996 e novamente entre 2003 e 2005. A economia estava saudável nesses períodos (apesar da bolha imobiliária). De forma oposta, muitos dos maiores saltos de produtividade ocorreram durante recessões, em 2001 e 2009.

De fato, este tem sido o padrão das últimas recessões e fases de recuperação. Antigamente, a produtividade costumava aumentar em épocas favoráveis para a economia, mas desde 1990, a correlação se inverteu. O mercado de trabalho vai bem nos EUA, com criação de vagas e baixo desemprego. Trata-se da nova normalidade.

A maneira como as empresas atualmente usam o trabalho não é mais a mesma. Quando chega a crise, os empregadores demitem pessoal, mas mantêm a produção relativamente estável, fazendo mais com menos, e assim a produtividade aumenta. Quando vem a recuperação, as empresas voltam a contratar, mas a produção ainda se mantém, então a produtividade cai. A nova tendência ocorre porque as empresas nem de longe alteram seus níveis de produção como ocorria no passado. Ninguém sabe ao certo o motivo disso (embora muitos economistas tenham criado modelos para tentar chegar a uma explicação).

Outro fator tranquilizador é que a produtividade do trabalho não é boa métrica para a eficiência real subjacente da economia. Gerar produto não exige somente trabalho, também requer capital - instalações, máquinas, software, etc. Outra métrica, a produtividade total dos fatores (PTF), leva em conta esses aspectos, não só o trabalho. Enquanto a produtividade do trabalho costuma subir e descer em reação a variações na demanda agregada, a PTF é considerada indicador melhor de forças subjacentes, como tecnologia e políticas públicas.

A PFT tem mostrado lentidão nos últimos anos, levando muitos economistas a questionar se o progresso tecnológico está perdendo fôlego. De todo modo, a PFT não está caindo de fato. A economia não está ficando menos eficiente, apenas mais intensiva em trabalho. Nos últimos trimestres, a economia usou mais trabalhadores e menos máquinas e instalações para produzir bens e serviços.

No longo prazo, oscilações na demanda se anulam mutuamente, de modo que PFT e produtividade do trabalho acabam marchando na mesma direção. Mas ao longo de décadas, não se sabe se a produtividade do trabalho realmente muda o padrão de vida da maioria da população dos EUA. A remuneração mediana por hora trabalhada subiu bem menos do que a produtividade do trabalho nas últimas décadas. A maior parte dos ganhos da força de trabalho mais produtiva foi parar no bolso dos profissionais de maior renda. Ainda que a aceleração do crescimento da produtividade no longo prazo seja positiva, a economia não descobriu como colocar esses ganhos no bolso do americano médio.

Assim, há muitas razões que eliminam as preocupações com o crescimento lento da produtividade. Provavelmente é apenas um artefato do ciclo de negócios. Reverter a queda não solucionaria um dos piores problemas da economia: como traduzir ganhos de produtividade em prosperidade para a maioria.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

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