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A história secreta da Libor: o banqueiro que criou um monstro

Gavin Finch e Liam Vaughan

(Bloomberg) -- Resultado de uma grande pesquisa e de um pouco de matemática, a Libor ajuda a fixar taxas de juros no mundo inteiro, afetando o preço de mais de US$ 300 trilhões de hipotecas, empréstimos e derivativos.

Apesar de sua onipresença, pouca gente fora do mundo das finanças tinha ouvido falar da Libor antes de 2012, quando reguladores descobriram que um certo número de bancos - entre eles o Barclays, o UBS e o Citigroup -, em conluio, tinham conspirado para manipular a taxa de juros de referência e os multaram em US$ 9 bilhões. Neste fragmento de The Fix (Wiley, dezembro de 2016), um livro sobre o escândalo Libor que será publicado em breve, os jornalistas da Bloomberg, Gavin Finch y Liam Vaughan, seguem o rastro desse número misterioso.

Em 1969, Neil Armstrong caminhou na Lua, Richard Nixon foi eleito presidente dos EUA e 400 mil hippies se encontraram em uma tranquila fazenda de Nova York perto de Woodstock.

Do outro lado do Atlântico, em um dia de inverno em Londres, um banqueiro grego de bigode chamado Minos Zombanakis estava dando seu próprio pequeno passo para entrar na história. Ele tinha inventado uma nova maneira de emprestar grandes quantidades de dinheiro para empresas e países que queriam tomar dólares emprestados, mas que preferiam evitar os rigores da regulamentação financeira dos EUA.

Enquanto o sol se punha sobre os telhados do West End londrino, Zombanakis estava de pé, ao lado de sua mesa, no novo escritório do último andar da Manufacturers Hanover, bebendo champanhe e comendo caviar com o presidente do banco central do Irã, Khodadad Farmanfarmaian. Zombanakis tinha acabado de dar o maior empurrão em sua carreira assinando um empréstimo de US$ 80 milhões para o xá do Irã, que estava com problemas financeiros. Os iranianos tinham trazido o caviar beluga e Zombanakis, o champanhe vintage - a festa varou a noite.

O empréstimo para o Irã foi um dos primeiros a cobrar juros variáveis que refletiam mudanças nas condições do mercado e eram divididos entre um grupo de bancos. No sério mundo da década de 1960, isso foi algo tão revolucionário quanto o pouso na Lua, mas celebrado com menos fanfarra, e marcou o nascimento da Libor.

"Eu senti uma sensação de realização ao montar tudo aquilo, mas não imaginei que estivéssemos preparando o terreno para um novo período no mundo financeiro", diz Zombanakis, que hoje mora em Kalyves, na ilha de Creta, entre as mesmas oliveiras que sua família cuida há gerações.

"Nós só estávamos precisando de uma taxa para o mercado de empréstimos sindicalizados com a qual todos ficassem contentes. Quando você começa essas coisas, você nunca sabe como elas vão acabar, como elas vão ser usadas."

Problema

Zombanakis conheceu Farmanfarmaian em Beirute em 1956 e os dois tinham se dado muito bem. Então, quando os iranianos precisaram de dinheiro, eles foram direto para o escritório da Manufacturers Hannover Trust, conhecida como "Manny Hanny", na Upper Brook Street no exclusivo distrito londrino de Mayfair. Zombanakis sabia que nenhuma empresa emprestaria sozinha US$ 80 milhões para um país em desenvolvimento que não tinha reservas de moeda estrangeira suficientes para cobrir a dívida.

Zombanakis e sua equipe inventaram uma solução: cobrar dos mutuários uma taxa de juros recalculada a cada poucos meses e financiar o empréstimo com uma série de depósitos prolongados. A fórmula era simples.

Os bancos no sindicato informariam seus custos de financiamento um pouco antes da data de rolagem dos empréstimos. A média ponderada, arredondada para o oitavo de ponto percentual mais próximo mais um diferencial de lucros, era o preço do crédito do período seguinte. Zombanakis a chamou de taxa interbancária oferecida em Londres (London interbank offered rate).

Swaps

À medida que os mercados financeiros de Londres alçaram voo, eles foram se tornando cada vez mais complexos. Poucos anos depois, a Libor, que era uma ferramenta para precificar créditos e títulos individuais, passou a ser uma referência para transações de centenas de bilhões de dólares com derivativos.

O principal desses novos derivativos era o swap de taxas de juros, que dava a possibilidade de as empresas mitigarem o risco dos juros flutuantes.

O swap foi inventado em um período de volatilidade extrema das taxas globais, na década de 1970 e no começo da década de 1980.

O conceito é simples: duas partes concordam em intercambiar pagamentos de juros sobre um montante determinado em um período fixo; em sua forma mais básica e comum, uma paga uma taxa fixa acreditando que as taxas de juros vão subir e a outra paga uma taxa flutuante apostando que elas vão cair. A parte flutuante do contrato está ligada, na maioria dos casos, à Libor.

Não eram só os tesoureiros de empresas que compravam isso. Como os swaps necessitam de muito pouco capital adiantado, eles fornecem aos traders uma forma muito mais barata de especular sobre movimentos nas taxas de juros do que os títulos de governos. Em pouco tempo, os bancos tinham acumulado posições residuais enormes nos instrumentos.

Na década de 1990, a Libor estava consolidada no sistema como a referência para tudo, de hipotecas e empréstimos estudantis a swaps. Mas ela cimentou sua posição no coração dos mercados financeiros quando foi adotada pela Chicago Mercantile Exchange como taxa de referência para os contratos de futuros em eurodólares.

A maioria dos participantes do mercado não se preocupou com a transição da CME para a Libor, mas pelo menos duas pessoas bem informadas sobre bancos alertaram os reguladores de que essa era uma medida perigosa, reportou mais tarde a Reuters.

Uma foi Marcy Engel, advogada da Salomon Brothers, que no fim de 1996 escreveu para o órgão regulador de derivativos dos EUA, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês), alertando que a mudança encorajaria os traders a trapacearem.

"Um banco poderia sentir a tentação de ajustar seus lances e ofertas perto do momento da pesquisa de modo a beneficiar as próprias posições", escreveu ela.

A outra Cassandra foi Richard Robb, de 36 anos, trader de taxas de juros na DKB Financial Products em Nova York que, em uma carta à CFTC, sugeriu que as empresas poderiam sentir a tentação de baixar os preços de suas apresentações em épocas de estresse para esconder qualquer dificuldade de financiamento.

"Já naquela época me parecia que a Libor era vulnerável à corrupção", diz Robb, que hoje é CEO da Christofferson Robb e professor da Columbia University. "Estava pronta para explodir. Foi construída de uma forma que servia ao propósito original, mas quando se tornou tão dominante, deveria ter sido reforçada e colocada sobre bases mais firmes."

Mercado de 'cavalheiros'

Na verdade, manipular a Libor era muito mais fácil do que se pensava. O que as autoridades do mundo não reconheciam era que até mesmo credores que faziam apresentações muito altas ou muito baixas para serem incluídas no cálculo final podiam influir no valor fixado para a Libor porque eles reincluíam no pacote uma taxa excluída anteriormente.

Traders com enormes posições em derivativos só precisavam mover a taxa alguns poucos centésimos de ponto percentual para obter grandes lucros, e a influência deles era suficientemente pequena para evitar serem detectados. Com um portfolio de US$ 100 bilhões em swaps de taxas de juros, um banco podia ganhar milhões de dólares com um deslocamento de 1 ponto-base.

De sua sala em Kalyves, Zombanakis pode ver a casa onde cresceu. Ele diz que às vezes é difícil reconhecer o mundo de investment banking moderno, onde os traders levam para casa bonificações de milhões de libras esterlinas e enganam os clientes num piscar de olhos. Farmanfarmaian, que morreu no ano passado, e muitos outros clientes foram seus amigos a vida inteira. "Naquela época, o mercado era pequeno e dirigido por alguns cavalheiros", diz Zombanakis

"E cavalheiros não tentariam manipular as coisas assim. Mas quando o mercado cresceu, não era possível confiar. Não era possível controlá-lo. Hoje, os bancos são como um mercado negro de prostituição dirigido por cafetões. Simplesmente há muito dinheiro envolvido."

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