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Odebrecht desenha plano de sobrevivência após multa bilionária

Vanessa Dezem

(Bloomberg) -- Em épocas melhores, a reunião anual de planejamento estratégico da gigantesca construtora brasileira Odebrecht era um grande evento de vários dias em exóticos resorts cinco estrelas para algumas centenas de diretores e suas famílias. Hoje, não há retiros pomposos, nem refeições de luxo, e absolutamente nenhuma esposa, marido ou filho.

Quando os executivos se reuniram na sede do conglomerado, em Salvador, no fim do ano passado, a equipe havia encolhido pela metade. Cinco dos diretores ausentes estavam na cadeia ou em prisão domiciliar como parte da maior investigação de corrupção da história do Brasil; outros 72 negociavam acordos de delação premiada após acusações de que a companhia pagou propinas para conseguir lucrativos contratos e depois inflou os custos. O restante foi vítima da pior recessão do Brasil em pelo menos um século. Para os que restaram, havia um tópico na agenda: sobreviver.

Na reunião realizada em meados de dezembro, o conglomerado discutiu seu plano de focar em apenas dois negócios: o braço do setor de construção e a petroquímica Braskem, que juntos representam 84 por cento das receitas do grupo, segundo três pessoas com conhecimento do plano estratégico plurianual da Odebrecht. O plano inclui vender mais ativos do que os já anunciados e conseguir novos contratos de construção, com foco em países onde a reputação da companhia não tenha sido fortemente arranhada, disseram as pessoas, que pediram anonimato porque o plano não é público. No Brasil, a empresa planeja priorizar contratos com empresas privadas em vez de estatais.

"A unidade de construção e a Braskem são os principais ativos do grupo, então faz sentido concentrar os esforços em garantir que esses dois pilares funcionem", disse Alexandre Garcia, analista sênior da Fitch Ratings em São Paulo, que não viu detalhes do plano. "A questão principal é a renovação do backlog da construtora, o que simplesmente ainda não está acontecendo."

O backlog -- ou a carteira de projetos contratados -- da unidade de Engenharia e Construção da Odebrecht, diminuiu cerca de 40% em relação ao ano anterior, para cerca de R$ 64 bilhões em 2016, segundo projeções da Fitch Ratings.

A Odebrecht possui participação de 50,1 por cento no capital votante da Braskem. A Petrobras, a gigantesca petroleira que concedeu diversos contratos inflados ilegalmente às construtoras, possui 47 por cento das ações ordinárias.

O plano estratégico marcaria uma forte redução da empresa, que opera em 26 países em 12 linhas de negócios diferentes, em setores como agricultura, energia e defesa. A Odebrecht já vendeu em 2016 R$ 5 bilhões (US$ 1,6 bilhão) dos R$ 12 bilhões em ativos colocados à disposição para aliviar a crise financeira e reduziu sua força de trabalho em quase 60 mil funcionários entre 2013 e 2015, para 128.000, segundo sua assessoria de imprensa. Os esforços permitiram que a empresa reduzisse sua dívida em quase 15 por cento, para R$ 95 bilhões, no período de seis meses até junho de 2016.

"A Odebrecht pretende manter seus negócios nos mercados em que atua, inclusive no exterior, além de fortalecer as operações no Brasil", disse a assessoria de imprensa da Odebrecht em resposta por e-mail a perguntas, sem confirmar detalhes do plano estratégico. A assessoria informou que a empresa não realiza reuniões anuais em resorts cinco estrelas desde 2012. "Os ativos que estão em alienação são primordialmente relacionados a segmentos de maior liquidez ou que não haviam se tornado linhas de negócio."

A Odebrecht, que diversas vezes negou qualquer irregularidade, fechou acordo em dezembro com as autoridades dos EUA para pagar mais de US$ 3,5 bilhões -- a maior multa da história -- por violar a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. O acordo abre caminho para que a Odebrecht volte a apresentar ofertas para contratos públicos no Brasil, mas a admissão de irregularidades também introduziu novas informações que levaram outros governos, incluindo os do Peru e da Colômbia, a abrirem investigações próprias contra a companhia. Em dezembro, o Panamá proibiu a Odebrecht de apresentar ofertas para qualquer contrato no país até que reembolse o governo por eventuais prejuízos.

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