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'Espiral mortal' e falta de cédulas ameaçam economia do Zimbábue

Brian Latham e Mike Cohen

07/02/2017 14h36

(Bloomberg) -- A escassez de dinheiro no Zimbábue deixou um buraco negro no sistema financeiro que está destruindo o restante da economia.

"Nós depositamos o dinheiro e ele se torna teórico, efêmero", disse Mohamed Salam, dono de diversas pequenas lojas que vendem material de construção em Harare, a capital do país, em entrevista. "Meu saldo bancário diz que o dinheiro está lá, mas não está. Eu posso fazer pagamentos eletrônicos para fornecedores locais, mas não posso pagar os fornecedores estrangeiros."

Com a crise de liquidez, as empresas não conseguem pagar seus trabalhadores em dinheiro e nem os fornecedores estrangeiros, deixando muitos sem trabalho e aumentando o grupo de mais de 3 milhões de pessoas que se tornaram exilados econômicos. A economia provavelmente encolheu 0,3 por cento no ano passado e deverá se contrair em 2,5 por cento neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional.

O Zimbábue abandonou sua moeda própria há oito anos e adotou principalmente o dólar, o que inicialmente colocou um freio na hiperinflação. Agora, com a economia em dificuldades e um dólar forte incentivando as importações e reduzindo as exportações, as cédulas praticamente desapareceram, levando o banco central a ordenar que os bancos privados limitassem os saques dos clientes a US$ 150 por semana. O Reserve Bank estima que cerca de US$ 4 bilhões estão circulando na economia, mas o presidente da Confederação da Indústria do Zimbábue, Busisa Moyo, afirma que o montante pode ser de apenas US$ 100 milhões.

"A economia está no que poderia se transformar em uma espiral mortal", disse Steve Hanke, professor de Economia Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA, que estudou a chegada da hiperinflação no Zimbábue, em resposta por e-mail a perguntas. Ele culpou o governo do presidente Robert Mugabe, 92, por ser "tão incompetente e corrupto e propenso a fazer políticas econômicas ruins".

Pagamentos interrompidos

A escassez de divisas estrangeiras forçou a cervejaria Delta, na qual a Anheuser-Busch InBev possui participação de quase 23 por cento, e a empresa de telecomunicações Econet Wireless Zimbabwe, as duas maiores empresas do país, a suspenderem os dividendos e a interromperem os pagamentos a fornecedores estrangeiros no fim do ano passado. Ambas as empresas disseram que não preveem nenhuma interrupção das operações. Os acionistas da Econet concordaram com um plano da companhia para levantar US$ 130 milhões em moeda estrangeira.

Vários comerciantes e outras empresas estão oferecendo grandes descontos para os clientes que pagam em dinheiro e limitando o valor para pagamentos com cartões de crédito ou simplesmente recusando-se a aceitá-los.

"O país ficou sem dinheiro e nós perdemos completamente a capacidade de pagar as importações", disse John Robertson, economista independente em Harare. "Essa situação ocorre em um cenário de queda da produtividade porque as empresas não têm acesso a insumos vitais porque não há moeda estrangeira para pagá-los. Enquanto o governo continuar fazendo coisas para desencorajar o investimento local e estrangeiro no setor produtivo, a situação só poderá piorar."

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