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Investidores implacáveis dizem que é hora de comprar Brasil

Paula Sambo

(Bloomberg) -- Durante vários meses, investir no Brasil vinha sendo uma brisa. Comprar qualquer tipo de ativo gerava alguns dos maiores ganhos do mundo, enquanto os operadores aplaudiam o esforço do presidente Michel Temer de emplacar medidas de austeridade destinadas a conter um aumento do déficit do orçamento.

Isso mudou abruptamente na noite de quarta-feira, depois de notícia inesperada publicada pelo Globo sobre suposta gravação que mostraria o presidente Michel Temer dando aval à compra de silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. Investidores sentiram o cheiro de um desastre em andamento e os mercados abriram quinta-feira com um selloff disseminado de tudo, desde o real ao Ibovespa, passando pelos títulos brasileiros.

Agora, pouco mais de 24 horas após impacto as primeiras revelações surgirem, alguns gestores de fundos destemidos estão calculando e procurando oportunidades de compra em meio ao caos. Claro, eles reconhecem, Temer pode muito bem estar rumo a uma saída e seus ambiciosos planos para controlar o déficit da Previdência e mudar as leis trabalhistas poderiam estar mortos, mas a maior economia da América Latina ainda detém um grande valor para os investidores dispostos a trabalhar duro

"No curto prazo, isso é negativo para a reforma da Previdência e para o sentimento, mas somos o tipo de fundo que, quando os preços caem, estamos mais inclinados a comprar", disse Adrian Landgrebe, gestor de carteira de mercados emergentes da Sagil Capital, em Londres. "Vemos alguns movimentos realmente extremos e esses são o tipo de coisas que procuramos comprar".

Na verdade, a queda foi forte. Real teve maior queda desde 1999, o Ibovespa caiu à mínima desde janeiro e os títulos do governo registraram a maior perda em mercados emergentes.

E ninguém está dizendo que a carnificina acabou. Temer adotou um tom desafiante em um discurso na noite de quinta-feira, dizendo que não renunciará e negou qualquer irregularidade, desprezando as esperanças de alguns investidores em uma resolução rápida. Mas os otimistas dizem que o Brasil é uma economia com uma grande classe média e abundantes recursos naturais, e em algum momento vai se recuperar.

Os ativos brasileiros dispararam nos últimos 18 meses com os investidores ganhando confiança de que o governo seria capaz de enfrentar os gastos excessivos e a baixa arrecadação que resultaram na perda de sua classificação de grau de investimento. O Ibovespa subiu 69% em dólar no ano passado, enquanto o real se apreciou 22%, o melhor desempenho do mundo para ações e moedas.

Marcelo Assalin, que administra US$ 8,5 bilhões como chefe da dívida de mercados emergentes da NN Investment Partners, disse que o selloff de quinta-feira foi exacerbado pelo fato de que muitos investidores grandes estavam com posição overweight no Brasil e tentaram desmontar rapidamente suas posições. Ele disse que a perspectiva para os mercados dependerá da rapidez com a qual uma solução institucional tomará forma.

"O selloff será indiscriminado num primeiro momento, ai sera o momento de procurar por oportunidades para investir", disse Assalin. "Este é o momento de ter calma e esperar por mais clareza. Os ativos brasileiros oferecem um bom valor para os investidores que tem visao de mais longo prazo."

Vários analistas dizem que Ambev pode ser uma boa escolha de ações. O Deutsche Bank AG escreveu em uma nota que o hedge cambial da fabricante de cervejas ajudaria a protegê-lo de um real mais fraco, e estrategista do Morgan Stanley Guilherme Paiva também citou como um bom valor.

Os investidores devem favorecer empresas de alta qualidade capazes de suportar incertezas políticas prolongadas e fraqueza econômica, escreveu Paiva. Além da Ambev, recomendou ações da produtora de celulose e papel Fibria, Odontoprev e Ultrapar.

A Fibria e suas concorrentes Suzano Papel & Celulose e Klabin foram alguns dos poucos pontos fortes entre as ações brasileiras na quinta-feira, em meio à especulação de que uma moeda mais fraca aumentará sua competitividade ao tornar suas exportações mais baratas em termos de dólar.

Vinicius Pasquarelli, trader de dívida emergente da Fynsa International, em Santiago, disse que a venda de títulos da Petrobras faz com que os ativos pareçam uma boa compra.

"Quando um pais como o Brasil enfrenta um cenário de risco político tão forte quanto este, uma boa estratégia é se aproveitar da baixa dos preços para se colocar ativo nos melhores créditos do país".

Talvez a recomendação mais improvável em meio à carnificina de quinta-feira seja comprar títulos da empresa que ajudou a causar todo o caos: JBS. As acusações de que Temer teria sido conivente com compra do silêncio de Eduardo Cunha conforme notícia do Globo tiveram origem em delação de executivos da empresa.

JBS está mais perto de colocar o escândalo por trás, de acordo com Ian McCall, que gerencia US$ 185 milhões em ativos de mercados emergentes na Quesnell Capital, em Genebra. Ele recomenda títulos do frigorífico e da Eldorado Celulose.

Jim Barrineau, co-responsável pela dívida dos mercados emergentes da Schroder Investment Management, disse que estava se posicionando em Petrobras e JBS, dado que, à medida que os detalhes da corrupção se dissiparem, menos riscos existem para novas revelações prejudiciais.

"A nuvem sobre JBS e Eldorado pode começar a se mover", disse McCall, que acrescentou que ele estava plenamente consciente da ironia de sua recomendação. "Para esses dois nomes, os eventos das últimas 24 horas podem revelar-se bastante construtivos no longo prazo."

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