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Modelo Apple não funciona em carros autônomos: Bloomberg View

Noah Smith

16/02/2018 14h44

(Bloomberg) -- Os fãs dos carros autônomos devem ter respirado aliviados com a notícia de que duas gigantes do setor, a Uber e a Waymo, uma divisão do Google, chegaram a um acordo em seu processo judicial sobre propriedade intelectual. O trato elimina uma grande distração para as empresas e as libera para se concentrarem em suas próprias pesquisas.

Isso é positivo. Os carros autônomos serão incrivelmente benéficos para a sociedade. Poderiam salvar dezenas de milhares de vidas nos EUA todos os anos, além de um número ainda maior em países como Índia e China, e evitar milhões de lesões. Poderiam economizar centenas de horas para o americano médio a cada ano -- nas quais poderão trabalhar ou descansar enquanto estão em trânsito. E poderiam eliminar o estresse de dirigir, melhorando a saúde e a qualidade de vida de bilhões de pessoas.

É impossível enfatizar o bastante o potencial benéfico e transformador dos carros autônomos. Por isso, é ótimo ver o governo dos EUA imaginando como regular os veículos autônomos muito antes da adoção ampla dessa tecnologia. A legislação bipartidária foi introduzida tanto na Câmara de Representantes quanto no Senado para harmonizar regras na esfera federal, enquanto a Administração Nacional de Segurança Rodoviária dos EUA tenta remover obstáculos regulatórios desnecessários. Enquanto isso, os senadores Bill Nelson, Gary Peters e John Thune apresentaram um conjunto de princípios que planejam usar para regular os carros autônomos.

A maioria dos princípios é razoável -- promover a segurança, a cibersegurança e a educação, e impulsionar a inovação o mais rapidamente possível. Mas um dos princípios -- segundo o qual o governo permanece neutro em relação a tecnologias alternativas de veículos autônomos -- merece uma análise mais aprofundada.

Ao contrário dos veículos comuns, dirigidos por seres humanos, os carros autônomos funcionam melhor em rede. Quando se comunicam entre si, podem evitar batidas com muito mais eficácia. Mas se os carros da Waymo não se comunicarem com os da General Motors, a segurança de todos nas ruas será menor.

Isso significa que as empresas têm bons motivos para conectar seus carros para que eles se comuniquem, certo? Talvez não. Com a falta de comunicação entre as marcas, cada consumidor tenderia a comprar um veículo da marca mais dominante ou popular, porque esse carro teria o maior número de outros carros para se comunicar (e evitar batidas). Em outras palavras, existe um perigo real de as empresas automotivas tentarem ser como a Apple, limitando a interconectividade para tentar transformar o mercado automotivo em um ecossistema fechado e monopolizado.

A possibilidade de lucro com a monopolização do mercado automotivo -- ou até mesmo do componente de software desse mercado -- é enorme. Vamos supor que as pessoas estarão dispostas a pagar US$ 10.000 pelo software que controla um carro autônomo. São vendidos cerca de 17 milhões de carros novos nos EUA por ano. A simples multiplicação desses dois números se traduziria em uma receita de US$ 170 bilhões por ano, ou quase o montante ganho pela Amazon.com no ano passado.

Mas se uma empresa detivesse um verdadeiro monopólio -- se o cliente tivesse que comprar o software de direção autônoma de uma empresa para não correr um risco muito maior de se machucar ou morrer --, ela tentaria maximizar os lucros, porque assim agem os monopólios. Aumentaria os preços, restringiria a produção e tornaria a compra do carro mais difícil para a classe média.

O monopólio em tecnologia autônoma seria ruim não só para os consumidores, mas também para os trabalhadores do setor, segundo pesquisas recentes, porque os empregadores dominantes poderiam usar seu poder para pagar salários mais baixos. Por uma série de razões, o governo deve agir para evitar que este setor seja dominado por uma única empresa.

A forma tradicional de lidar com um monopólio é dividi-lo, como a AT&T foi obrigada a fazer em 1982. Mas no caso dos carros autônomos, uma atitude assim deixaria as ruas menos seguras no geral, porque restariam algumas marcas menores cujos carros não se comunicam entre si.

Uma ideia melhor é que o governo ordene que todos os carros autônomos se comuniquem uns com os outros. A maneira mais fácil de fazer isso é exigir que as empresas de software autônomo tornem públicos todos os softwares e protocolos usados para as comunicações entre os carros. Talvez isso não resolva completamente o problema, já que esses protocolos e esse código podem funcionar muito melhor com o sistema de uma empresa do que com o de outra. Mas se os órgãos reguladores promulgarem essa regra nos estágios iniciais, as empresas poderiam desenvolver seus sistemas em torno de um sistema de comunicação interveicular universal e compartilhado desde o começo. Haveria uma verdadeira neutralidade tecnológica, sem vantagem de mercado para nenhum sistema.

Esse tipo de regra impediria a monopolização da frota de automóveis por motivos de segurança. Mas no fundo é realmente mais parecida com algo que o governo tem feito há séculos -- harmonização de pesos e medidas. Essa é uma função essencial e útil do governo que, aliás, está prevista na Constituição dos EUA.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.