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Harvard perde US$ 1 bi em apostas agrícolas, inclusive no Brasil

Michael McDonald e Tatiana Freitas

(Bloomberg Businessweek) -- Seis anos atrás, Jane Mendillo, então responsável pelo fundo de doações à Universidade Harvard, passou uma semana no Brasil, voando em um avião turboélice para supervisionar os ativos que a entidade comprava na forma de florestas e terras para agricultura. Naquele ano, Harvard iniciava uma de suas aventuras mais ousadas no exterior: um investimento agrícola em uma região remota e especialmente pobre do Nordeste brasileiro. Ali, seriam produzidos pasta de tomate, açúcar, etanol e energia com a biomassa da cana. Teoricamente, os lucros poderiam superar os obtidos tradicionalmente com ações e títulos de dívida, além de manter a universidade mais rica do mundo à frente de seus concorrentes.

Harvard apostou no Brasil e perdeu. A universidade colocou pelo menos US$ 150 milhões no projeto e agora está saindo dele, de acordo com fontes a par do assunto que pediram anonimato porque não têm autorização para falar sobre o investimento. O empreendimento contribuiu para a decisão do atual responsável pelo fundo, N.P. Narvekar (conhecido pelo apelido Narv), de reduzir o valor contábil da carteira global de recursos naturais em US$ 1,1 bilhão, para US$ 2,9 bilhões no ano passado. Harvard, que administra US$ 37,1 bilhões, afirmou que esses investimentos geraram retorno robusto, mas agora enfrentam "desafios significativos". Atuais e antigos representantes da instituição não comentaram a informação.

Harvard cometeu diversos erros na última década, de acordo com Thomas Gilbert, professor de Finanças da Universidade de Washington, mas quase todos se resumiam a um erro central: a crença de que seus principais gestores ? que receberam US$ 242 milhões em pagamentos entre 2010 e 2014 ? eram mais espertos do que todos os outros e poderiam lidar com os riscos que quase todos os fundos de doações evitavam. "Eles se tornaram balas perdidas", disse Gilbert.

"Quando se administra dinheiro de doadores, isso é chocante."

Ao longo da última década, os investimentos de Harvard geraram retorno médio anual de 4,4 por cento, uma das menores taxas entre seus pares. A universidade ficou em desvantagem até em comparação com o retorno anual de 6,4 por cento da estratégia mais simples da praça: investir em um fundo de índice que acompanha o mercado, com 60 por cento do dinheiro aplicado em ações e 40 por cento em títulos.

Algumas das trapalhadas de Harvard foram bem documentadas. Diante de perdas substanciais após a crise financeira de 2008, Mendillo vendeu participações em empresas de capital fechado (private equity) com descontos enormes antes que pudessem se recuperar. O sucessor dela, Stephen Blyth, fez uma experiência ao ampliar a equipe interna de traders de ações e precisou voltar atrás quando as carteiras perderam dezenas de milhões de dólares. Blyth deixou o cargo em 2016.

Mas talvez nenhuma aposta tenha prejudicado tanto Harvard quanto sua aventura no setor de recursos naturais. A universidade investiu em vinícolas da Califórnia, florestas de teca na América Central, uma fazenda de algodão na Austrália, uma plantação de eucalipto no Uruguai e em madeira de lei na Romênia. Ultimamente, Harvard tem reavaliado e vendido alguns desses projetos, como parte da plantação no Uruguai, vendida para a seguradora Liberty Mutual no ano passado.

"A carteira de recursos naturais era para ser a joia da coroa", disse Joshua Humphreys, presidente do Instituto Croatan, organização sem fins lucrativos em prol do capitalismo sustentável. "Mas eles ficaram conhecidos por assumir riscos exagerados, que podem ir para um lado ou para outro."

Nem sempre esses investimentos resultaram em perdas. Mendillo assumiu as rédeas vendendo madeira de lei nos EUA na década de 1990 e entregou lucros substanciais quando trabalhava para Jack Meyer, que na época era o responsável pelo fundo de doações. Harvard também ganhou com a compra e venda de madeira de lei na Nova Zelândia em 2003.

Quando Mendillo voltou a Harvard, após administrar o fundo de doações da Faculdade Wellesley, ela tentou repetir a façanha. Desta vez, ela achava que a madeira de lei dos EUA estava cara. O raciocínio dela era que Harvard poderia usar Ph.D.s em florestas e outras mentes brilhantes para encontrar oportunidades em mercados emergentes, aproveitando o crescimento da demanda por recursos escassos ao redor do mundo, segundo entrevista que ela concedeu à Bloomberg em 2012.

Mendillo via esses investimentos como apostas que durariam décadas e o conselho a quem ela prestava contas concordou. "Nossa área favorita é a de recursos naturais", ela declarou durante uma conferência de investidores em julho de 2012. Na época, a economia brasileira estava crescendo e o governo tinha entre suas prioridades investimentos em regiões pobres do Nordeste. A universidade trabalhou em parceria com a firma brasileira de private equity Gordian BioEnergy e abriu uma empresa chamada Terracal Alimentos e Bioenergia, de acordo com documentos fiscais e pessoas com conhecimento do assunto.

A Terracal planejava gastar mais de R$ 5 bilhões em complexos agrícolas. O primeiro projeto visava transformar milhares de hectares nos arredores de uma cidade do Piauí chamada Guadalupe, nas margens do Rio Parnaíba, usando técnicas modernas de irrigação. Quando Mendillo deixou a presidência do fundo de doações, em 2014, a economia brasileira estava com o pé no freio e o escândalo de corrupção no governo estava se alastrando, o que assustou Harvard e outros investidores estrangeiros.

A estratégia compensou para um grupo: os gestores do dinheiro de Harvard. Alvaro Aguirre, que supervisionava os investimentos em recursos naturais, recebeu US$ 25 milhões ao longo de quatro anos, de acordo com registros tributários. O pagamento do chefe dele, Andrew Wiltshire, somou US$ 38 milhões em cinco anos. Os dois já saíram de Harvard. Mendillo chegou a receber US$ 13,8 milhões em um ano.

Narvekar, que assumiu em 2016, decidiu transferir a maior parte dos investimentos de Harvard para gestores externos. Embora considere mais baixas contábeis nos investimentos em recursos naturais, ele indicou que pode manter alguns se tiverem valor agora. Veteranos formados em 1969 deram uma sugestão recentemente a Narvekar: invista em fundos de índice.

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