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China investe US$ 1 bi em porto onde nenhum navio quer parar

Iain Marlow

18/04/2018 14h20

(Bloomberg) -- A cada ano, aproximadamente 60.000 navios vitais para a economia global atravessam o Oceano Índico e passam por um porto operado pelos chineses no extremo sul do Sri Lanka. Quase nenhum deles atraca lá para descarregar mercadorias.

O porto de Hambantota - quase sem trânsito de contêineres e com cercas pisoteadas que os elefantes atravessam facilmente - tem oito anos e se tornou um exemplo perfeito do que pode dar errado para os países envolvidos na iniciativa de comércio e infraestrutura "Um Cinturão, Uma Rota" do presidente Xi Jinping. O Sri Lanka tomou grandes empréstimos para construir o porto, não conseguiu quitá-los e depois concedeu à China um arrendamento de 99 anos para aliviar a dívida.

A experiência aumentou o receio de que os planos de Xi para financiar mais de US$ 500 bilhões em projetos possibilitem que a China assuma o controle de infraestrutura estratégica que também tem usos militares. Mas o enorme conglomerado estatal chinês que ficou com o porto em dezembro quer provar que os céticos estão errados.

A China Merchants Group - cuja receita de 2017, US$ 93 bilhões, eclipsa o PIB do Sri Lanka - pretende aproveitar sua experiência da China à Europa para tornar o porto rentável. Durante uma rara demonstração do lugar no fim do mês passado, o executivo Tissa Wickramasinghe disse à Bloomberg News que a empresa já tinha quase dobrado o número de navios que visitam o porto.

"Estamos determinados a fazer com que dê certo", disse Wickramasinghe, diretor operacional da Hambantota International Port Group, uma joint venture dirigida pela China Mercants. "Se o porto deveria ter sido construído, por que ele foi construído - para mim, isso é irrelevante agora."

Contudo, o porto ainda está longe de preocupar a concorrência em Cingapura, na Malásia e no Oriente Médio. Mesmo com mais trânsito, Hambantota recebe apenas um navio por dia, o que não basta nem para aparecer nos dados da própria China Merchants sobre os volumes de processamento de cargas de fevereiro. O porto não entrou na lista das Nações Unidas dos 40 maiores terminais de contêineres do mundo.

As grandes linhas de transporte marítimo agora encaminham as cargas para Colombo, capital do Sri Lanka, e veem poucos motivos para desviar as operações para o sul. A Maersk Line, a maior transportadora de contêineres do mundo, aguarda que a operadora de Hambantota ofereça uma "proposta de valor firme" aos clientes, segundo Steve Felder, diretor administrativo da empresa no Sul da Ásia.

O desempenho fraco do porto fortaleceu a impressão de que ele simplesmente atende a interesses estratégicos gerais da China para garantir rotas comerciais e importantes redes de abastecimento internacional. Seriam necessários bilhões de dólares em investimentos para gerar um trânsito significativo, segundo Rahul Kapoor, analista de transporte marítimo da Bloomberg Intelligence em Cingapura.

Nesta semana, a China negou a especulação de que a iniciativa "Um Cinturão, Uma Rota" tem uma dimensão militar. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying, disse que a iniciativa era "aberta e transparente". Hambantota trouxe benefícios mútuos e ajudaria a economia do Sri Lanka, disse ela.

"Acho que quem especula não tem motivos para fazer isso", disse Hua.

--Com a colaboração de Anusha Ondaatjie Hannah Dormido e Peter Martin

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