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Stiglitz vê real acordo comercial EUA-China `quase impossível'

Enda Curran

19/04/2018 14h17

(Bloomberg) -- Um acordo comercial significativo entre os EUA e a China é improvável se o presidente Donald Trump não reconhecer que a China tem o direito de desenvolver sua economia, de acordo com Joseph Stiglitz, economista da Universidade de Columbia e ganhador do Prêmio Nobel.

Embora possa surgir um acordo para manter as aparências, que permita que Trump reivindique uma vitória por sua abordagem hawkish para reduzir o déficit comercial dos EUA, um acordo duradouro neste momento parece "quase impossível", disse Stiglitz.

A seguir, trechos editados de uma entrevista realizada no escritório de Stiglitz, em Nova York, na terça-feira:

Como o senhor avalia as tensões comerciais entre os EUA e a China?

O que está havendo agora é uma escaramuça. A China está reagindo de forma bastante ponderada, sem procurar intensificar a tensão. A noção de que é impossível acalmar um valentão da escola é muito forte. Acho que a China não tem outro caminho.

A China e os EUA podem chegar a um acordo comercial duradouro?

Existem problemas fundamentais que tornam quase impossível chegar a um acordo verdadeiro. Pode haver um acordo para manter as aparências, mas isso não vai resolver as tensões comerciais. Os EUA se recusam a reconhecer que a China é um país em desenvolvimento. Países diferentes estão em etapas de desenvolvimento diferentes. Isso é fundamental para o sistema da OMC. Eu estava presente na criação, e muito consciente. Um país em desenvolvimento nunca entraria na OMC se seu direito ao desenvolvimento não fosse reconhecido. É um direito fundamental e eles não vão abrir mão desse direito. Vemos a China como um grande país e nos recusamos a reconhecer seu direito ao desenvolvimento.

E as preocupações dos EUA com a estratégia "Made in China 2025"?

Claro que eles têm uma estratégia para crescer. Que país em desenvolvimento responsável não tem uma estratégia? Todos os economistas dizem que uma parte importante do desenvolvimento é que o Estado intervenha em seu impulso. Seria uma negligência se o governo não defendesse isso.

A China está seguindo as regras sobre como tratar o investimento estrangeiro?

Trump parece não admitir que a OMC é um acordo comercial, não um acordo de investimento. Diante da chegada de um investimento, um país em desenvolvimento diz: "Quero que esse investimento faça parte da minha estratégia de desenvolvimento". A maior parte dos países bem-sucedidos fizeram isso. Não é desleal. É o que se imagina que uma economia em desenvolvimento responsável faria. Então, não temos um acordo de investimento que diga que a China não está respeitando as regras.

Existe o risco de uma disputa comercial prolongada?

A ideia do que significa o livre comércio entre sistemas econômicos diferentes está sendo trazida à tona. Os EUA aprenderam a conviver com a Europa, um sistema ligeiramente diferente. É preciso respeitar diferentes normas e visões de regulamentos. Tentar dizer "minha visão de mundo é a correta" não vai resolver o problema.

Qual é perspectiva do senhor para o crescimento global?

O quadro geral é que, se não fosse pelo estímulo fiscal extremo dos EUA, estaríamos em uma etapa de recuperação fraca. A crise já passou, mas os EUA não avançam de vento em popa. É um estímulo de curto prazo e não significa que a economia global esteja em terreno sólido.