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Ativistas chineses do #metoo usam blockchain contra censura

Keith Zhai e Lulu Yilun Chen

24/04/2018 10h47

(Bloomberg) -- Os ativistas estudantis que estão tentando iniciar o movimento #MeToo na China recorreram à tecnologia que baseia o bitcoin para combater a censura do governo.

A rara exibição de discordância surgiu depois que a estudante Yue Xin acusou a prestigiosa Universidade de Pequim de tentar silenciar seus pedidos para falar publicamente sobre um episódio de assédio sexual ocorrido há mais de 20 anos. Embora ela não tenha tido envolvimento no antigo incidente, as autoridades da faculdade tentaram intimidá-la e calá-la, escreveu Yue em carta aberta, na segunda-feira. A universidade a obrigou a deletar as informações sobre o caso e pediu aos pais dela que a confinassem em casa, escreveu a estudante de graduação.

A carta aberta de Yue provocou reações em um país que lida há tempos com a discriminação de gênero endêmica longe dos holofotes públicos e onde o movimento #MeToo tem sido suprimido. É também um protesto incomum contra uma autoridade, particularmente se se considera que a Universidade de Pequim é, há décadas, a alma mater de altos funcionários do Partido Comunista, inclusive do primeiro-ministro Li Keqiang. A carta viralizou em plataformas como WeChat, da Tencent Holdings, e Weibo, da Sina, mas as postagens relacionadas foram rapidamente excluídas.

Foi então que os apoiadores dela colocaram o comunicado no blockchain do ethereum, na segunda-feira -- o que garante que nunca poderá ser apagado ou adulterado.

Um usuário anônimo anexou a carta de Yue a uma transação com ether e a postou no blockchain, o livro-razão descentralizado que registra todas as atividades da criptomoeda. A transação custou a quem postou um total de 52 centavos de dólar, segundo o registro. Embora qualquer pessoa com acesso a um node (ou "nó") do ethereum possa ver o comunicado, o público geral não terá tanta facilidade, a menos que alguém copie a mensagem do livro-razão e a republique na web. Mesmo assim, as autoridades chinesas poderiam facilmente bloquear o site.

"É simbólico, mas a ação não será adotada facilmente pela massa", disse Isaac Mao, um empreendedor de São Francisco que está construindo uma plataforma de mídia que usa tecnologia blockchain para combater a censura. "A mídia descentralizada ainda tem quilômetros a percorrer. Mas isso dá novas esperanças às pessoas."

Os usuários adotaram outros métodos criativos para enganar os órgãos de vigilância: distorcer a imagem da carta (para driblar o software de reconhecimento de objetos) ou deixá-la de cabeça para baixo. Cartazes com demonstrações de apoio apareceram pelo campus. A Universidade de Pequim publicou um comunicado em seu website na segunda-feira afirmando que "sempre respeitou os direitos básicos de todos os estudantes e que se esforça para proteger os direitos e interesses legítimos de todos os estudantes".

"Este é o maior incidente em mais de 10 anos em que os estudantes decidiram pedir às autoridades um esforço maior para aumentar a transparência", disse Du Guang, ex-pesquisador da Central Party School, um think-tank do governo com sede em Pequim. "Este incidente me lembra os movimentos estudantis do início da era comunista."

Mas é o método do blockchain que garante um registro indelével.

"Não há 404, é permanente", diz uma resposta postada no blockchain, em referência ao código de erro que evidencia uma página web faltante e que normalmente aparece quando os censores chineses excluem informações consideradas inadequadas.