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Após abril, ignorar riscos nos emergentes é coisa do passado

Paul Wallace

30/04/2018 12h50

(Bloomberg) -- Complacência é coisa do passado. A palavra de ordem agora é cautela.

Nos últimos dois anos e meio, a impressão era que quase nada poderia interromper a valorização dos mercados emergentes. Com montanhas de dinheiro barato a seu favor, gestores de recursos não davam bola a riscos políticos e econômicos ? passando por impeachment e crise de dívida. A busca por taxas de retorno mais elevadas estava acima de tudo.

Este último mês fez com que muitos investidores abrissem os olhos. As bolsas perderam US$ 360 bilhões em valor de mercado, títulos públicos denominados em dólar estão sofrendo as maiores quedas acumuladas entre janeiro e abril desde pelo menos 2003 e as moedas desses países devem amargar o pior mês desde a eleição de Donald Trump à Casa Branca.

Os riscos estão se misturando e há um sentimento palpável de que a era do dinheiro fácil está chegando ao fim. Até mesmo os otimistas mais ardentes estão ficando seletivos.

"A busca por narrativas idiossincráticas continuará e a mentalidade de comprar na baixa e manter os ativos no longo prazo deve permanecer", de acordo com um relatório a clientes escrito por estrategistas do Bank of America Merrill Lynch, incluindo David Hauner e Claudio Irigoyen. "Até isso mudar.''

Segue abaixo um resumo dos fatores que preocupam gestores de recursos:

Títulos do Tesouro americano

Pela primeira vez em mais de quatro anos, o rendimento título do Tesouro americano com prazo de 10 anos ultrapassou 3 por cento, na semana passada, diminuindo a atratividade dos ativos de risco. Os spreads dos ativos de mercados emergentes ainda estão grandes, mas as perdas dos últimos dias enfatizaram o potencial de fuga de capital.

Oscilações do dólar

A correlação entre o dólar e os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, que vinha diminuindo no último ano, voltou a subir. O dólar mais forte é o fator imprevisível que pode se mostrar "altamente disruptivo para os mercados emergentes", afirmaram os analistas do BofA.

Talvez isso já esteja acontecendo. Bancos centrais da Argentina à Indonésia começaram a vender reservas para proteger suas moedas.

Guerra comercial

Os investidores não estão tão preocupados com a possibilidade de a retórica de Trump contra os parceiros comerciais dos EUA prejudicar os mercados emergentes, de acordo com o BofA.

Ainda assim, "muitos temem que uma grande mudança de mentalidade na China possa causar o desengajamento de comércio e investimentos americanos da China", afirmou o relatório do BofA. "O último fator pode ter um impacto bem mais negativo sobre os mercados."

Geopolítica
Os ativos da Rússia se estabilizaram após a Casa Branca sugerir que pode aliviar as sanções ? contra empresas e oligarcas considerados próximos do presidente Vladimir Putin ? que derrubaram o rublo no início do mês. Porém, os mercados por lá continuam demonstrando nervosismo.

Além disso, o presidente francês Emmanuel Macron revelou acreditar que Trump vai retirar os EUA do acordo nuclear com o Irã ? uma perspectiva que já abala os ativos do Oriente Médio e elevou a cotação do petróleo para perto do maior nível desde 2014.

Quanto à Coreia do Norte, autoridades ocidentais afirmam que não há garantia de que o líder Kim Jong-Un tenha mesmo intenção de interromper os testes nucleares.

Eleições

Na Índia, a eleição estatal em Karnataka no mês que vem se tornou um referendo sobre a liderança do primeiro-ministro Narendra Modi. Um mau desempenho do partido dele pode reduzir as chances dele na votação de 2019 e o interesse dos investidores na economia indiana, que movimenta US$ 2,8 trilhões.

A Malásia realiza eleições no mês que vem. Uma derrota da coalizão que governa atualmente pode ter implicações significativas para a política fiscal, de acordo com o Goldman Sachs Group.

Na América Latina, o peso mexicano desabou desde meados de abril, diante do avanço do candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador nas pesquisas para a votação de julho.

No Brasil, com um quadro eleitoral tão fragmentado, os investidores não sabem o que esperar de outubro. A vitória de um candidato menos comprometido com a consolidação fiscal do que o presidente Michel Temer pode causar choques.

Na Turquia, não há dúvida entre os investidores de que o atual presidente Recep Tayyip Erdogan vai vencer. O que não se sabe é o que isso significará para a política monetária e a combalida moeda local.

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