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Grandes consumidores de petróleo começam a travar preços

Alex Longley e Javier Blas

25/05/2018 11h33

(Bloomberg) -- A escalada dos preços do petróleo para US$ 80 o barril está começando a causar preocupação nos conselhos das empresas e alguns grandes consumidores industriais, incluindo companhias aéreas e de navegação, estão começando a comprar mais seguros contra o aumento dos preços da energia.

Após três anos de preços baixos, o crescimento do chamado hedging de petróleo para consumidores discricionários ainda é relativamente incipiente, mas vem acelerando nas últimas semanas, segundo tradings, bancos e consultores a par do assunto, que pediram anonimato por discutirem acordos privados.

"Os consumidores estão fazendo hedging, o que está dando respaldo ao extremo da curva do Brent", diz Thibaut Remoundos, fundador da Commodities Trading Corporation, com sede em Londres. "Eles ampliarão seus hedgings frente à fragilidade do preço."

O aumento do hedging sugere que os preços do petróleo estão flertando com um limite doloroso para os consumidores, um sinal possivelmente preocupante para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que sempre observa com cuidado o crescimento da demanda. Michael O'Leary, CEO da Ryanair Holdings, importante empresa aérea da Europa, alertou nesta semana que a alta dos preços dos combustíveis estava prejudicando sua empresa e as concorrentes.

"Os preços à vista próximos de US$ 80 por barril gerarão uma agitação significativa no setor já no inverno (Hemisfério Norte)", disse ele à Bloomberg Television.

Os consumidores de petróleo que travam os preços -- ou fazem hedging -- normalmente entram em duas categorias: os sistemáticos, que compram seguros regularmente independentemente do preço do petróleo, e os discricionários, ou oportunistas, que compram a preços particulares. Em certos momentos, algumas empresas combinam ambos os estilos de trading.

As ações da Norwegian Air Shuttle, que tomou a ousada decisão de apostar na queda dos preços, caíram cerca de 12 por cento neste mês, período em que o combustível de avião subiu 5 por cento no noroeste da Europa.

"Com o preço do combustível mais elevado, estimamos que algumas empresas reduzirão a capacidade no quarto trimestre e estaremos atentos para fazer o mesmo", disse Willie Walsh, CEO da IAG, proprietária da British Airways, na conferência de resultados da empresa, em 4 de maio.

O hedging maior dos consumidores ajuda a explicar o aumento nos futuros do petróleo Brent de longo prazo, que têm tido desempenho superior ao rali dos preços à vista. O Brent para dezembro de 2020 subiu 11 por cento até esta altura do mês, contra um ganho de mais de 5 por cento no contrato mais próximo. As tradings também destacaram acordos no repositório de dados de swap dos EUA como indicativos de atividade maior dos consumidores.

"Temos visto muito interesse dos consumidores", disse Harry Tchilinguirian, chefe de estratégia para mercados de commodities do BNP Paribas. "Com o petróleo a caminho de US$ 80, isso se transformou em demanda dos consumidores."

Em Washington, os democratas estão usando os preços altos da gasolina, que se aproxima de US$ 3 por galão (cerca de US$ 0,80 por litro) pela primeira vez desde outubro de 2014, para acusar o governo Trump de não se esforçar o bastante para proteger os consumidores. E em países emergentes como Brasil e Filipinas os motoristas se queixam dos preços elevados.

--Com a colaboração de Kaye Wiggins, Benjamin D. Katz e Catherine Ngai.

Repórteres da matéria original: Alex Longley em Londres, alongley@bloomberg.net;Javier Blas em Londres, jblas3@bloomberg.net