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Máquinas de mineração de criptomoedas se espalham por Caracas

Daniel Cancel

25/05/2018 13h13

(Bloomberg) -- A febre das criptomoedas pode ter perdido impulso em boa parte do planeta, mas continua firme e forte entre os moradores de Caracas. Eles estão minerando moedas como loucos.

Um amigo meu que trabalha com publicidade comprou uma máquina, instalou-a em casa e pediu que seu filho de 20 anos a deixe ligada o tempo todo. Eles estão produzindo cerca de US$ 6 por dia. Outro amigo, um programador desempregado, também instalou uma no apartamento. Mas o bendito equipamento era tão barulhento que os vizinhos reclamaram e ele precisou transferi-lo para a casa dos pais, do outro lado da cidade. E um terceiro investiu com a família em três máquinas. Eles estão conseguindo US$ 1.000 por mês. É uma pequena fortuna por aqui.

Quer dizer, até mesmo US$ 6 por dia é um dinheiro bastante decente em um país atolado em uma terrível depressão econômica. O ponto fundamental para o sucesso de meus amigos com a mineração é que a eletricidade, embora irregular, é basicamente gratuita, resultado de uma estranha combinação da hiperinflação e do congelamentos de preços dos serviços públicos ordenado pelo governo. (Um café com doces e suco em uma cafeteria custa 900.000 bolívares -- ou cerca de US$ 0,90 pelo câmbio do mercado paralelo --, mas é possível pagar as contas mensais de eletricidade, água, gás, internet e telefone com cerca de 300.000 bolívares).

Eu me encontrei com esses velhos amigos ao retornar à cidade para cobrir as eleições. Eles fazem parte da classe média venezuelana, que está cada vez menor. Muitos como eles foram empurrados para a pobreza. E incontáveis deles fugiram para o exterior.

Os que ficam mostram uma resolução de ferro. "Os seres humanos conseguem se adaptar a qualquer coisa": escutei essa frase diversas vezes.

Um dos principais aspectos dessa adaptação é conseguir alguma maneira de estabelecer um fluxo estável de receita em dólares ou em alguma outra moeda estrangeira. É o único jeito de acompanhar o ritmo da inflação, que um índice da Bloomberg estima em cerca de 16.000 por cento ao ano. Uma família com quatro membros pode viver razoavelmente bem em Caracas com US$ 500 por mês.

Ou seja, quem não faz mineração de criptomoedas pode prestar serviços de programação para empresas internacionais, jogar fantasy game on-line ou receber remessas de membros da família que agora trabalham no exterior. Essa última opção está fazendo sucesso. É estranho de ver. As remessas sempre foram algo que fortaleceu outras economias da região -- lugares como Honduras, El Salvador e República Dominicana. Mas a Venezuela, o extravagante país da Opep onde comecei no jornalismo ainda jovem, anos atrás?

"Países não desaparecem."

Essa é outra frase que escutei bastante na última semana. É verdade. Mas eles podem implodir.