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Pequenas empresas portuguesas começam a deixar bancos de lado

Anabela Reis

25/06/2018 11h19

(Bloomberg) -- Quando os fundadores da empresa portuguesa Sensei precisaram de financiamento para a startup deles, neste ano, eles não foram a um banco. Preferiram recorrer a uma empresa varejista de alimentos.

A Sensei, cujo algoritmo ajuda o comércio varejista a detectar prateleiras vazias e a movimentação de clientes nas lojas em tempo real, assegurou 600.000 euros (US$ 696.000) na chamada fase pré-semente com investidores como a empresa de alimentos atacadista alemã Metro e uma unidade da proprietária de supermercados portuguesa Sonae. Em troca, as empresas de varejo receberam participações na startup.

"Os bancos são avessos ao risco quando se trata de empreendimentos", disse Vasco Portugal, CEO da Sensei e pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), em entrevista. "Quando se está começando, é difícil alinhar os fluxos de caixa a uma estrutura de pagamento de empréstimos. Além disso, os investidores trazem uma experiência incalculável que vai além do capital."

O modelo da Sensei pode ser adotado cada vez mais por outras pequenas e médias empresas que formam a espinha dorsal da economia portuguesa -- apenas 1.038 entre 1,2 milhão de empresas do país não entraram na categoria em 2016. Em um momento de dificuldades para deixar para trás as montanhas de créditos de liquidação duvidosa, os bancos têm relutado em conceder novos empréstimos a empresas com históricos curtos, levando essas entidades a buscar outras formas de financiamento.

Altamente alavancada

Quatro anos após deixar seu resgate internacional, Portugal ainda é uma das economias mais alavancadas da União Europeia, com uma dívida privada de mais de 170 por cento do produto interno bruto. O legado dos empréstimos inadimplentes, principalmente do setor corporativo -- que responde por cerca de dois terços dos empréstimos de liquidação duvidosa -- continua sendo uma das principais fraquezas dos bancos.

Segundo declaração conjunta de junho da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, o alto índice de empréstimos com liquidação duvidosa "dificulta uma alocação mais eficiente de recursos no setor corporativo e, portanto, enfraquece o crescimento potencial".

Isso está levando as empresas que tentam lucrar com a recuperação da economia da região a buscarem cada vez mais outras fontes de financiamento.

Albano Fernandes, fundador e CEO da fabricante de calçados AMF Safety Shoes em Guimarães, no norte de Portugal, decidiu transformar sua empresa e se concentrar na produção de calçados técnicos para trabalhadores em 2005. Em vez de tomar empréstimo, ele vendeu uma participação de 50 por cento a um sócio, comprometendo-se a reinvestir os recursos na empresa. A AMF estima que as vendas aumentarão mais de 20 por cento neste ano, para 14 milhões de euros, e quer ter cerca de 20 milhões de euros em receitas nos próximos cinco anos.

A economia portuguesa cresceu 2,7 por cento em 2017, melhor ritmo desde 2000. Os novos empréstimos bancários às empresas ainda estão abaixo do nível de 2014, quando o país deixou o programa de resgate internacional, embora os empréstimos para grandes empresas venham mostrando sinais de recuperação em relação ao ano passado. Enquanto isso, os empréstimos hipotecários e ao consumidor aumentaram.

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