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Onda de calor devastadora prejudica colheita na Europa

Agnieszka de Sousa e William Wilkes

16/07/2018 11h58

(Bloomberg) -- Observando seus campos ressecados, ao sul de Berlim, o produtor de lácteos e grãos Thomas Gäbert gostaria que as chuvas salvassem suas plantações após um calor implacável.

Ele é um dos muitos agricultores que lutam pela sobrevivência após a onda de calor e a seca que atingiram algumas regiões na parte norte do continente, danificando plantações de grãos como trigo e cevada. Muitos produtores alemães podem ir à falência se sofrerem outra quebra de safra e o excesso de chuva na França deverá reduzir a produção no país. Com essas condições combinadas, o bloco se prepara para a menor colheita de grãos em seis anos.

"Parece que há um deserto por aqui", disse Gäbert, de sua fazenda, em Trebbin. Seus colegas, que plantam há 40 anos, dizem que nunca viram algo assim.

Gäbert deve perder um terço da colheita normal de trigo e mais da metade da produção de colza porque o calor e a falta de chuvas secaram as plantas. Ele teme não conseguir grão suficiente para alimentar suas 2.500 vacas e está preocupado por não ter seguro contra possíveis prejuízos causados pelo clima quente.

A situação é tão ruim na Alemanha -- as temperaturas superaram os 30 graus Celsius durante boa parte de maio e junho -- que muitos agricultores estão destruindo as plantações em vez de tentar a colheita, disse Joachim Rukwied, presidente da associação de produtores DBV. Os fracassos agrícolas do segundo maior produtor de grãos da UE, somados à safra ruim do ano passado, podem levar muitos produtores à falência, alertou o grupo alemão de cooperativas agrícolas DRV na semana passada.

Veja como as safras estão sendo afetadas na UE:

Forno no Reino Unido e na Polônia

O verão mais quente do Reino Unido em quatro décadas causou prejuízos acima do normal às lavouras de trigo porque o inverno úmido e tardio afetou o desenvolvimento das raízes, deixando as plantas mais vulneráveis aos danos causados pela estiagem no verão. Na Polônia, mais de 66.000 fazendas, abrangendo 1,2 milhão de hectares, foram atingidas pela seca, informou o Ministério da Agricultura.

Desastre no Báltico

Ao leste da Polônia, os danos à agricultura levaram a Lituânia e a Letônia a declarar desastre natural nacional ou estado de emergência.

Os últimos dias trouxeram algumas chuvas aos países bálticos e à Polônia. O norte da Europa receberá algumas precipitações nesta semana, mas muito leves e provavelmente insuficientes para aliviar a seca, disse Kyle Tapley, meteorologista agrícola sênior da Radiant Solutions.

França encharcada

A produção de trigo da França, a maior produtora da UE, surge como a maior surpresa. Apesar de o clima quente e úmido inicialmente ter sugerido que o país teria a melhor colheita em anos, a previsão logo mudou. A chuva em excesso e o sol insuficiente renderam um trigo com menos grãos e trarão como resultado rendimentos menores, segundo a Strategie Grains.

Solo arenoso na Alemanha

Na Alemanha, Gäbert ainda não sabe como alimentará o gado e seus campos estão tão arenosos que a semeadura para a colheita do ano que vem será um desafio. Nas últimas semanas, a Alemanha foi forçada a importar trigo para ração de países distantes como a Romênia, disse Hendrik Manzke, corretor da Amme & Mueller.

--Com a colaboração de Milda Seputyte e Manisha Jha.

Repórteres da matéria original: Agnieszka de Sousa em Londres, atroszkiewic@bloomberg.net;William Wilkes em Frankfurt, wwilkes1@bloomberg.net