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Facebook aponta lei de privacidade da UE por queda de usuários

Nate Lanxon e Stephanie Bodoni

27/07/2018 11h47

(Bloomberg) — Em meio a uma queda no preço das ações, o Facebook quer que os investidores em pânico acreditem que o estrito Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da Europa é o culpado pela queda no número de pessoas que usam a rede social na região. Legisladores da UE discordam.

A nova lei entrou em vigor em 25 de maio e obrigou as empresas que mantêm dados sobre cidadãos da UE a obter um consentimento "inequívoco" para coletar informações pessoais. O Facebook sabe muito sobre em que as pessoas estão interessadas e torna esse público facilmente disponível para anunciantes. Isso impulsionou o rápido crescimento das receitas, bilhões de dólares em lucros e um aumento nos preços das ações nos últimos anos.

Mais de US$ 100 bilhões desses ganhos no mercado foram eliminados na quinta-feira depois que o Facebook divulgou números de vendas e de crescimento de usuários que decepcionaram Wall Street. A empresa perdeu cerca de 1 milhão de usuários ativos europeus mensais no segundo trimestre, deixando-a com 376 milhões. O número de usuários diários caiu ainda mais. O diretor financeiro, David Wehner, culpou a implementação do RGPD pelo declínio.

"Observamos os declínios que antecipávamos por causa do RGPD", disse ele. "E eu diria que, na verdade, esses impactos se deveram puramente ao impacto do RGPD, e não a outras tendências de engajamento."

Os resultados do segundo trimestre do Facebook cobriram o período desde o início da vigência do RGPD. Mas este também foi o primeiro trimestre completo depois da revelação de que informações pessoais de até 87 milhões de usuários acabaram nas mãos da Cambridge Analytica, uma empresa de consultoria política que trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump. As audiências no Congresso sobre o uso do Facebook e de outras redes sociais por parte da Rússia para semear discórdia política em torno das eleições dos EUA também aconteceram no segundo trimestre.

Alguns legisladores europeus disseram que esse escândalo foi um fator mais significativo que o RGPD para o desligamento de usuários.

"Eu não descartaria que as acusações de possibilitar interferência em eleições democráticas, devido ao escândalo da Cambridge Analytica, também tenham desempenhado um papel importante aqui", disse Marietje Schaake, membro do Parlamento Europeu da Holanda, em e-mail. "Responsabilizar uma lei poderia ser uma saída fácil para a empresa".

Andrea Jelinek, que lidera as autoridades da UE responsáveis pelo policiamento das políticas de privacidade de dados do bloco, disse que culpar o RGPD pela queda do crescimento do Facebook "não leva em conta os acontecimentos recentes".

"O RGPD entrou em vigência em meio a uma série de escândalos no Facebook envolvendo Cambridge Analytica e outros aplicativos", disse ela. "Se o RGPD mudou alguma coisa, é que os usuários agora estão mais conscientes de seus direitos e prontos para exercê-los."

—Com a colaboração de Aoife White, Sarah Frier e Selina Wang.

Repórteres da matéria original: Nate Lanxon em Londres, nlanxon@bloomberg.net;Stephanie Bodoni em Luxemburgo, sbodoni@bloomberg.net