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`Me enganaram': O colapso de uma gigante das commodities

Krystal Chia e Andrea Tan

28/08/2018 12h58

(Bloomberg) -- Francis Tay se sente enganado.

O ex-funcionário público de Cingapura conta que perdeu o equivalente a US$ 36.600 na implosão da trading de commodities Noble Group. Ele afirma que outros acionistas também foram abandonados pelas autoridades reguladoras responsáveis por protegê-los do tipo de crise que levou a empresa ao abismo.

O aposentado de 71 anos afirma que não tinha alternativa a não ser votar a favor de uma reestruturação de troca de dívidas por ações que entregará o controle aos credores mais importantes e diluirá o valor dos acionistas atuais. Após uma assembleia geral extraordinária em Cingapura na segunda-feira, o acordo de resgate foi aprovado com 99,96 por cento dos votos.

"Me enganaram com minhas economias tão suadas", lamenta Tay, "Como uma empresa gigantesca pode ruir?" e "Que tipo de recado isso dá para o mundo sobre a reputação de Cingapura?"

A Noble Group já chegou a valer US$ 12 bilhões, mas foi reduzida a quase nada por dívidas impagáveis, prejuízos e acusações de manobras contábeis para ludibriar investidores. A trading listada em Cingapura não retornou pedidos de comentário da reportagem.

À medida que os problemas foram se acumulando, a atuação das autoridades locais foi colocada em xeque. Além de administrar a bolsa de valores, a Singapore Exchange (SGX) está na linha de frente de supervisão e tem responsabilidade de manter mercados justos, ordeiros e transparentes, e de investigar suspeitas de irregularidade. A entidade tem a retaguarda da Autoridade Monetária de Cingapura, o banco central da cidade-Estado que é um dos centros financeiros globais e conquistou a duras penas uma reputação de probidade.

No caso da Noble Group, as acusações vieram principalmente da Iceberg Research, que afirmava que os lucros da empresa eram inflados. A firma é liderada por Arnaud Vagner, que foi analista de crédito da própria Noble em Hong Kong, onde ficava a sede antes da mudança para Londres.

'Policial sem arma'

"A SGX é como um policial sem arma", disse Tay. "Investidores leigos como nós só têm acesso a informações superficiais, como comunicados da empresa ou noticiário."

A SGX se defendeu apresentando um resumo das medidas tomadas nos últimos três anos enquanto a situação da Noble se agravava.

"É preciso perguntar se o conselho da SGX priorizou adequadamente a proteção aos investidores", disse Mak Yuen Teen, professor de contabilidade da Faculdade de Administração da Universidade Nacional de Cingapura. Também precisa ficar claro se o conselho forneceu recursos suficientes ao braço regulatório da SGX, ele acrescentou.

Segundo Mak, o caso da Noble foi mais complicado para as autoridades locais porque a empresa é incorporada em Bermuda e "muitas das principais exigências de governança corporativa em termos de deveres dos diretores e direitos dos acionistas na lei de Cingapura não se aplicam".

Sob o acordo aprovado na segunda-feira, 70 por cento do capital da empresa reestruturada passará para mãos de credores sêniores, 10 por cento para os diretores e o resto para os acionistas existentes. Metade da dívida será desconsiderada.

Repórteres da matéria original: Krystal Chia em Cingapura, kchia48@bloomberg.net;Andrea Tan em Cingapura, atan17@bloomberg.net