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Mulheres idosas carregarão peso de cortes de gastos no Japão

Getty Images
Imagem: Getty Images

Maiko Takahashi

31/08/2018 13h07

(Bloomberg) -- Com o envelhecimento da sociedade japonesa e os cortes de gastos sociais feitos pelo governo, as mulheres mais velhas se preparam para o impacto.

"As únicas pessoas capazes de aproveitar a vida até os 100 anos são aquelas que têm dinheiro suficiente e família", disse Setsuko Betsui, uma mulher de 78 anos que mora em Saitama e recebe 120.000 ienes (US$ 1.077) por mês em benefícios. "Eu preferiria morrer daqui a dois anos."

Sobrecarregado por uma dívida pública que representa 236 por cento do produto interno bruto, o governo japonês está reduzindo os gastos com sua população idosa, que não para de crescer. O Ministério das Finanças está fazendo pressão para elevar a idade de início dos benefícios previdenciários de 65 para 68 anos. Até 2000, a idade era de 60 anos. As contribuições para assistência médica e cuidados com idosos já foram cortadas.

Ao mesmo tempo, uma parcela cada vez maior da população se torna idosa e está vivendo mais. A população com 65 anos ou mais atualmente compreende 27 por cento da sociedade, contra 9 por cento em 1980 -- o que transforma a população japonesa na mais velha do mundo.

"O sistema de bem-estar social atual não prevê que as pessoas vivam até os 100 anos de idade", disse Yukiko Miyaki, chefe de pesquisa do instituto de pesquisa The Dai-ichi Life.

Idosas sob pressão

As mulheres idosas, em particular, estão sob pressão financeira porque são menos propensas a ter empregos para complementar os benefícios. Enquanto 55 por cento dos homens com pouco menos de 70 anos trabalham, apenas 35 por cento das mulheres nessa faixa etária têm emprego, segundo o Escritório do Gabinete. Com o envelhecimento maior, fica mais difícil encontrar trabalho. As mulheres representam 88 por cento dos centenários do país, um grupo que cresceu de 8.500 pessoas em 1997 para 68.000 em 2017.

Antigamente, o governo contava com outras fontes de apoio para mulheres idosas. As esposas se beneficiavam dos bônus de aposentadoria e dos planos de seguro de vida dos maridos, e muitas vezes moravam com os filhos depois que os maridos morriam. Atualmente, os pagamentos únicos da aposentadoria não cobrem as necessidades frente a expectativas de vidas cada vez maiores, e as unidades familiares estão encolhendo.

A taxa de pobreza relativa entre os idosos, de 19,4 por cento, supera a média da OCDE, de 12,6 por cento. Entre essas pessoas, 52 por cento das mulheres solteiras vivem em relativa pobreza, contra 38 por cento dos homens solteiros.

"Quando o período de rápido crescimento e o tradicional sistema de emprego vitalício do Japão acabaram, o governo não conseguiu consenso dos contribuintes para transferir a carga desta rede de seguridade social das famílias para a sociedade", disse Takanori Fujita, autor de um livro popular, "Elders Descending into Poverty".

Mesmo agora, a rede de seguridade social do Japão gira em grande parte em torno da unidade familiar, e as donas de casa dependem dos maridos após o casamento e, posteriormente, dos filhos adultos. Este sistema funcionava bem 30 anos atrás, quando metade das famílias com integrantes de 65 anos ou mais viviam em uma família de três gerações.

No entanto, em três décadas, o número de idosos que moram sozinhos dobrou. Cerca de 70 por cento dessas pessoas atualmente são mulheres.