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Putin ressuscita superfrango soviético como estratégia de defesa

Stepan Kravchenko, Anatoly Medetsky e Evgenia Pismennaya

09/11/2018 12h54

(Bloomberg) -- Vladimir Putin está ressuscitando o frango que manteve os russos alimentados nos últimos dias do comunismo. O projeto é uma proteção contra possíveis sanções dos EUA a alimentos e um desafio para as duas produtoras ocidentais que fornecem todas as variedades comerciais do país.

Após uma série de contratempos, entre os quais um misterioso surto de gripe aviária e o abate forçado de 200.000 aves de testes no ano passado, o novo frango soviético finalmente está pronto para testes de mercado, segundo Vladimir Fisinin, 78, presidente da União Aviária Russa e um dos desenvolvedores dessa linha própria de animais.

A meta é compensar um possível déficit gerado por restrições dos EUA às exportações de ovos e pintinhos, que acabaram se transformando na principal fonte de proteínas da Rússia. Os EUA não ameaçaram incluir os alimentos nas penalidades que começaram a impor em 2014, pelo menos não publicamente. Mas Fisinin, que nasceu em uma fazenda coletiva na Sibéria às vésperas da Segunda Guerra Mundial, disse que seu país precisa se preparar para o pior ao lidar com uma Casa Branca cada vez mais imprevisível.

"Quem diabos sabe qual será o tolo que virá a seguir, como este sr. Trump", disse Fisinin, em entrevista, em Sergiev Posad, um centro monástico do século 14 localizado a 75 quilômetros ao norte de Moscou. Ele deu a declaração em seu escritório, na instalação onde realiza pesquisas há meio século.

Fisinin fez parte da equipe de especialistas que ajudou a ciência gastronômica soviética a se manter no nível do Ocidente com o desenvolvimento de uma versão maior e mais saborosa do Gallus gallus domesticus em 1972, mesmo ano em que Leonid Brejnev recebeu Richard Nixon por oito dias em Moscou. Batizado em homenagem ao protegido complexo em Sergiev Posad onde foi desenvolvido, o Smena, ou Mudança, foi uma dádiva para o Politburo e desencadeou um aumento recorde na produção de carne que durou até 1990.

Mas a União Soviética implodiu, o financiamento desapareceu e entraram no páreo ocidentais com genética mais avançada, levando a ave à beira da extinção. Uma série subsequente de fusões e aquisições internacionais deixou a Cobb-Vantress, uma unidade da Tyson Foods, e a Aviagen, da alemã EW Group, no comando do setor a partir de suas respectivas sedes no Arkansas e no Alabama, nos EUA.

Para Putin, é um risco de segurança inaceitável que haja tanto poder sobre a carne em tão poucas mãos estrangeiras, segundo dois altos funcionários envolvidos no planejamento para as sanções. E Putin e seus conselheiros não estão preocupados apenas com o frango. Produtoras russas de carne bovina, carne de porco, batata e até beterraba, a principal fonte de açúcar do país, também dependem de insumos genéticos dos EUA e da Europa.

O governo já aprovou um programa de substituição para a batata e está trabalhando em outro para a beterraba. O objetivo é replicar o que o Kremlin considera um sucesso em termos de contrassanções da Rússia aos produtos agrícolas da UE, que obrigaram as fazendas locais a aprender a arte de produzir especialidades estrangeiras, como presunto prosciutto e queijo parmesão, apesar de os esforços serem ridicularizados nas redes sociais.

"Há muitos pontos de pressão para qualquer um que queira destruir nossa economia", disse Andrei Klepach, economista-chefe do banco estatal de desenvolvimento VEB e ex-chefe do departamento de projeções do Ministério da Economia. "A recuperação do trabalho de reprodução é uma prioridade. Precisamos de uma espécie de comboio blindado em um ramal alternativo."

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