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Trabalhadores começam a abandonar Reino Unido antes do Brexit

Dara Doyle e Irene García Pérez

10/12/2018 16h13

(Bloomberg) -- Para Julio Manuel Ríos de la Rosa, o Brexit mudou tudo.

O cientista de 28 anos chegou a Manchester há cinco anos e trabalhava em um projeto conjunto da universidade e da AstraZeneca. Embora ainda restassem mais dois anos de contrato, ele pediu demissão e se mudou para Madri em março, onde entrou em uma pequena empresa espanhola que está testando um tratamento contra o câncer.

"Antes do Brexit, eu achava que me estabeleceria no Reino Unido, por causa de sua pesquisa de ponta, de seu alcance global e da rede", disse Ríos de la Rosa. "Mas a ideia de passar por um processo tedioso de papelada constante me desanimou."

A imigração líquida da União Europeia para o Reino Unido caiu para o patamar mais baixo em seis anos à medida que o Reino Unido ficou mais perto de se separar do bloco e a libra esterlina caiu - embora a primeira-ministra Theresa May tenha tentado tranquilizar os trabalhadores de que sua situação seria segura até mesmo se não houvesse acordo.

O presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, alertou que o Reino Unido corre o risco de registrar uma emigração líquida, que é prejudicial à economia, na pior das hipóteses, uma saída caótica da UE.

Desde 2015, o interesse dos europeus que buscam trabalho em empregos no Reino Unido vem diminuindo, segundo o site de contratações Indeed, que monitora cliques em publicações. O declínio foi encabeçado pela Irlanda e pela Polônia.

"Nossas conclusões compõem um resultado preocupante para os empregadores nos setores de saúde e construção do Reino Unido", disse Pawel Adrjan, economista da Indeed. "Ambos já sofrem com a escassez de competências, e nossa pesquisa sugere que esse problema pode piorar à medida que mais europeus retornarem a mercados de trabalho fortes em seus próprios países ou optarem por nem ir para o Reino Unido."

Britânicos de saída

Não apenas os estrangeiros estão indo embora. A geneticista britânica Emma Bell, 28, está se preparando para se mudar para Toronto, onde trabalhará como pesquisadora sobre câncer. Ela cogitava sair do Reino Unido desde o referendo do Brexit em 2016 - três de seus colegas já se mudaram para a Alemanha.

Na verdade, o Reino Unido continua atraindo muita gente. O número de pessoas que entraram no país superou em 273.000 a quantidade de gente que saiu no período de doze meses terminado em junho, afirmou o Escritório de Estatísticas Nacionais no mês passado. Cidadãos de fora da EU representaram a grande maioria desses números, mas a migração líquida vinda do bloco também continuou sendo positiva.

Na tentativa de acabar com a persistente incerteza, o secretário do Brexit, Stephen Barclay, garantiu os direitos dos cidadãos da EU e de seus familiares a "continuar trabalhando, estudando e tendo acesso aos benefícios e serviços como agora" na hipótese de um Brexit sem acordo.

No entanto, May disse que não será dada preferência aos cidadãos da UE no regime imigratório do Reino Unido depois do Brexit, que vai se basear nas habilidades e necessidades dos empregadores.

Ríos da la Rosa já tomou sua decisão.

"Depois do referendo, fiquei chocado, não apenas pelas consequências no âmbito pessoal - se precisaríamos ou não de um visto, por exemplo -, mas também porque o Reino Unido ficaria fora dos programas de pesquisa", disse ele.

--Com a colaboração de Jessica Shankleman e Anurag Kotoky.

Repórteres da matéria original: Dara Doyle em Dublin, ddoyle1@bloomberg.net;Irene García Pérez em Londres, igarciaperez@bloomberg.net