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Com Argentina em recessão, Macri desvia foco para segurança

Patrick Gillespie e Jorgelina do Rosario

22/01/2019 13h43

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, vem tentando afastar o debate nacional da crise econômica antes das eleições de outubro, e um membro do gabinete está constantemente a seu lado.

A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, assumiu uma posição de destaque ao lado de Macri no palácio presidencial na segunda-feira, quando ele anunciou um decreto que fortalece os poderes do governo para recuperar bens obtidos por meio de suborno, tráfico de drogas ou outras atividades criminosas. Foi sua segunda aparição ao lado de Macri em pouco mais de uma semana, o que gerou rumores na imprensa local sobre uma possível candidatura à vice-presidência.

Com a Argentina em recessão e longe do cenário econômico otimista que Macri tinha prometido, o governo está ávido para desviar a atenção da população para a questão da segurança. Pesquisas recentes mostram que, embora os argentinos considerem que o governo de Macri teve um desempenho lamentável na economia, o presidente superou as expectativas em relação à lei e à ordem. Bullrich, que está entre os ministros mais populares, está ajudando-o a mudar o debate.

"O governo está em uma batalha para reconquistar a classe média, e Macri não pode falar da economia depois da crise de 2018", disse Lucas Romero, diretor da consultoria Synopsis. "Então ele fala sobre uma questão com a qual a classe média vai se identificar: segurança".

Nove em cada dez argentinos dizem que a inflação é a maior preocupação, seguida pela incerteza econômica e pelos aumentos de preço dos serviços públicos. Seis em cada dez acreditam que a insegurança é um grande problema, de acordo com uma pesquisa de múltipla escolha realizada pela D'Alessio IROL-Berensztein, que entrevistou 1.355 pessoas em dezembro.

Bullrich cultivou a reputação de ser uma ministra fiel na luta contra a corrupção, e o governo confiscou uma quantidade recorde de drogas sob o controle dela. Ela também liderou a organização da segurança para a cúpula de líderes dos países do G-20 no final do ano passado, que ocorreu sem problemas.

A oposição

A criminalidade e a corrupção também são dois pontos fracos para a provável adversária de Macri na eleição, a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner. Alguns de seus ex-funcionários do alto escalão estão presos, condenados por suborno e corrupção. Cristina também foi acusada em vários casos de corrupção, mas atualmente goza de foro privilegiado como senadora.

Macri, um presidente favorável aos negócios que tomou posse prometendo reduzir a pobreza e a inflação, registrou uma queda de popularidade em 2018, quando a Argentina mergulhou em uma crise cambial. O peso se desvalorizou 50 por cento no ano passado, os preços ao consumidor subiram quase na mesma proporção e a economia provavelmente se contraiu cerca de 2,5 por cento. A pobreza também aumentou, após dois anos em queda. Como a recessão perdura, Macri quer desviar a atenção dos eleitores para outros aspectos.

O foco na criminalidade "é uma forma de manter a corrupção na cabeça das pessoas, onde sua oponente tem uma enorme fraqueza", disse Shannon O'Neil, membro sênior do Conselho de Relações Exteriores, em Buenos Aires. Para Macri, "se ele tiver sorte, a economia terá se recuperado na época da eleição. Mas é preciso fazer campanha com alguma coisa, e uma das coisas que se vê nas pesquisas é que os argentinos se preocupam com a segurança".

Repórteres da matéria original: Patrick Gillespie em Buenos Aires, pgillespie29@bloomberg.net;Jorgelina do Rosario em Buenos Aires, jdorosario@bloomberg.net