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Venezuelanos se debatem entre a fome e a tortura

Patricia Laya

23/01/2019 15h11

(Bloomberg) -- Nas vésperas de um protesto contra o governo, Caracas mergulhou em um debate acalorado. Isto está acontecendo por todas as partes: nos cafés, nos supermercados, no Whatsapp.

Famintos, falidos e exaustos após anos de um colapso econômico implacável, as pessoas aqui estão mais furiosas do que nunca com o regime de Nicolás Maduro. Não há dúvidas quanto a isso. O debate é sobre se valerá a pena atender ao chamado do líder da oposição, Juan Guaidó, e sair para protestar nesta quarta-feira em uma tentativa de obrigar Maduro a deixar o cargo.

Após dias ouvindo a pergunta ecoar por todos os lados, basicamente posso colocar os caraquenhos em dois campos: "Para quê?" e "Não podemos nos dar ao luxo de não fazer isso".

Aqueles que baixam os braços e dizem que não tem sentido rememoram as manifestações de 2017, que em algumas oportunidades atraíram milhões de pessoas para as ruas em todo o país. Mais de 100 pessoas morreram e milhares foram presas quando as forças de segurança agiram impiedosamente para restaurar a ordem. Rapidamente surgiram histórias de torturas brutais de detidos. Quando os protestos acabaram, a oposição ficou dividida e foi oprimida e o poder autoritário de Maduro ficou maior do que antes.

Por que arriscar nossas vidas? Assim define meu amigo Roberto, que ganha a vida vendendo autopeças importadas. "Maduro é à prova de balas", disse ele outro dia. "Ir às ruas não serve para nada."

O argumento do lado oposto é que este é o momento. Desta vez é diferente, dizem. Maduro sofre forte pressão internacional para renunciar -- dos EUA, do Brasil, da Organização dos Estados Americanos e também de uma oposição repentinamente revigorada. Guaidó, o presidente da Assembleia Nacional, de 35 anos, vem dando palestras, realizando comícios e pedindo que líderes mundiais e militares o reconheçam como legítimo chefe do Estado.

Venezuelanos de todas as tendências se uniram ao redor dele. Há tanta miséria no país, escassez de água, prateleiras vazias, apagões, hiperinflação e tudo o mais, que todo mundo está cansado. A maré parece ter começado a virar nos bairros operários e nas favelas que antes eram sólidos bastiões chavistas.

"Não tínhamos esse apoio em 2017", disse minha amiga María, que trabalha no setor de marketing de uma rede de fast-food. Maduro, disse, enfrenta uma batalha diferente agora.

Ela pode estar certa. Rebeliões espontâneas eclodiram nos arredores de Caracas e surgem cada vez mais fissuras na fidelidade das forças armadas ao presidente, pelo menos nos escalões mais baixos. Na segunda-feira, cerca de duas dúzias de guardas nacionais tomaram postos militares de Caracas, roubaram armas e mantiveram outros soldados reféns por um breve período; vídeos postados nas redes sociais mostram os guardas perguntando aos reféns por que eles não rompem fileiras diante da situação do país.

Amigos do exterior continuam me enviando mensagens, perguntando: "É para valer dessa vez?" Tudo o que eu posso dizer a eles é que eu não senti nada parecido com esse entusiasmo, e até mesmo ansiedade, pela dissidência ativa desde que voltei para Caracas em 2017. Eu não sei dizer a eles o que vai acontecer

Porque o debate continua. Há muito medo misturado com toda a paixão pela revolta. Esta quarta-feira mostrará quão poderoso é o domínio do medo sobre os venezuelanos.

--Com a colaboração de Alex Vasquez.