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Falha na mineração no Brasil alerta setor atrelado a menor custo

Laura Millan Lombrana

30/01/2019 16h48

(Bloomberg) -- O colapso da barragem de rejeitos da Vale no Brasil está servindo como um alerta para uma indústria que corta custos regularmente, armazenando resíduos de mineração da maneira mais barata possível.

A lama de rocha moída e os efluentes que sobram depois que as empresas extraem minerais comercializáveis do solo foram armazenadas por décadas em enormes lagoas retidas por aterros ou barragens. Sua segurança, no entanto, depende muito do design das lagoas e do custo de sua construção.

A barragem do Vale que desabou no Brasil em Brumadinho na semana passada e uma barragem anterior, em Mariana, que falhou três anos antes, foram construídos em movimento usando o método "upstream", normalmente o mais barato. Sob essa técnica, a parede que contém a lagoa é construída principalmente de rejeitos, e é projetada para crescer à medida que mais efluentes são bombeados. Um método mais caro pré-constrói as paredes e as isola.

"Há muitos cálculos que as pessoas podem fazer sobre o custo de uma falha", disse Dirk van Zyl, professor de engenharia de minas da Universidade da Columbia Britânica. "Você não tem apenas o custo real em dinheiro para a empresa, mas você também abre toda a discussão sobre o que vale uma vida humana?"

Nesta semana, o setor de mineração está ficando cara a cara com a matemática. Além dos 84 mortos e dos 276 desaparecidos, a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, pode sofrer danos de até US$ 7 bilhões pelo desastre atual, de acordo com a Bloomberg Intelligence. Isso é mais do que o dobro do passivo de US$ 3,3 bilhões na joint venture com a Samarco após o colapso em 2015 em Mariana. Embora ainda não esteja claro o que causou o rompimento da barragem na semana passada, a Vale disse nesta terça-feira que pretende descomissionar todas as 10 barragens a montante nos próximos três anos. No caso da Samarco, a pior catástrofe ambiental do Brasil, a mineradora supostamente ignorou os alertas de risco potencial e alterou a estrutura da barragem indevidamente, ao tentar manter altos os níveis de produção.

Alguns países já mudaram para abandonar o método de barragem a montante. No Chile, por exemplo, onde a mineração é um pilar da economia, nenhuma grande barragem de rejeitos desmoronou. Em 1970, as lagoas a montante foram proibidas nesse país, que sofreu alguns dos terremotos mais fortes já registrados.

Exigências

As empresas no Chile são obrigadas a submeter seus projetos para novas bacias de rejeitos às autoridades para aprovação. Uma vez construídas, as instalações são monitoradas de perto com empresas obrigadas a enviar dados regularmente a agências governamentais.

Antofagasta monitora seus maiores depósitos de rejeitos usando 76 instrumentos instalados na parede que constantemente enviam informações sobre métricas de estabilidade e segurança, disse a empresa por e-mail, respondendo a perguntas.

Enquanto isso, o sistema brasileiro de monitoramento de como os resíduos de mineração são armazenados com segurança envolve as próprias empresas pagando consultores independentes para inspecionar suas barragens. As companhias, então, apresentam esses relatórios a autoridades locais.

A fluidez dos resíduos também é fundamental, disseram especialistas. Uma terceira opção para garantir que o lixo seja armazenado com segurança é secando os rejeitos e empilhando-os, em vez de armazenar diretamente a pasta de materiais. Os rejeitos secos são mais estáveis e permitem que as mineradoras reciclem parte da água, que pode ser usada nos processos de mineração.

Ao mesmo tempo, esse método pode ser até dez vezes mais caro, de acordo com van Zyl, professor da University of British Columbia. Ele preferiu não especular sobre a causa do desastre do Vale, que está sob investigação.

A governança é fundamental: as recomendações de 2016 do Conselho Internacional de Mineração e Metais, bem como do painel de Mount Polley, exigem um monitoramento independente dos rejeitos.

O painel foi montado depois que uma falha de projeto na fundação de uma represa na mina Mount Polley da Imperial Metals Corp, no centro da Colúmbia Britânica, levou a uma brecha na parede. O acidente liberou bilhões de galões de água em rios e lagos locais e provocou debates em todo o Canadá sobre as normas de segurança e ambientais que regem os projetos de recursos.

--Com a colaboração de David Stringer e R.T. Watson.