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CEO ganha milhões cobrando várias taxas de pequenas empresas

Anders Melin e Reade Pickert

31/01/2019 15h40

(Bloomberg) -- Nos 35 anos que leva na direção de uma pequena empresa, Maria Kirk lidou apenas com uma empresa que a deixou doente fisicamente: a fornecedora de cartões de combustível FleetCor Technologies e os milhares de dólares em taxas que essa empresa cobrou.

"Muitas empresas tentam cobrar ninharias, mas isso nem pode se comparar", disse Kirk, dona de uma empresa de entrega de gelo em Orlando, Flórida. Ela disse que sua saúde se deteriorou nos anos que levou para resolver a disputa. "Parecia que eles falavam: 'Vamos desgastar todo mundo e ver quanto dinheiro podemos tirar daqueles que param de lutar'."

Kirk e outros proprietários de pequenas empresas se cadastraram para receber os cartões de combustível da FleetCor, na esperança de organizar gastos e economizar dinheiro na bomba. Mas os cartões vieram com mais de uma dezena de taxas, entre elas taxas de administração de conta (10 centavos de dólar por galão ou US$ 2 por transação), US$ 50 por pagar contas por transferência, US$ 3,50 por ciclo de faturamento se os cartões não fossem usados e, para alguns, uma sobretaxa se a gasolina caísse a menos de US$ 3,25 por galão. A última vez que o preço foi tão alto foi em 2014.

As práticas da FleetCor fizeram dela uma queridinha de Wall Street. Desde sua abertura de capital, em 2010, a receita da empresa aumentou cinco vezes, para US$ 2,2 bilhões, suas ações subiram mais de 780 por cento e seu CEO, Ron Clarke, se tornou um dos executivos mais bem pagos dos EUA. Ele ganhou US$ 357 milhões desde a abertura, valor quase igual ao que a Visa e a Mastercard, as maiores redes de pagamentos do mundo, pagaram juntas a seus líderes no mesmo período.

Polêmica

Defensores do consumidor e alguns ex-executivos da FleetCor dizem que a empresa é a personificação do capitalismo implacável onde o vencedor fica com tudo, e se aproveita de agentes menores que não têm outra opção a não ser apresentar queixas aos órgãos reguladores ou empreender litígios dispendiosos. Os defensores da empresa dizem que seu estilo de cobrar muitas taxas gerou bilhões para os investidores e a transformou na maior provedora de cartões de combustível dos EUA.

"A empresa descobre a maneira mais fácil de ganhar dinheiro", disse Jeff Lamb, ex-executivo da FleetCor. "Isso não é uma coisa qualquer -- isso é algo inteligente."

"Uma boa companhia deve satisfazer todas as partes interessadas -- seus investidores e seus clientes", disse Bart Naylor, ativista de políticas financeiras da Public Citizen. "Só porque uma prática é legal, não deveria ser um convite para a exploração."

Os órgãos reguladores não acusaram a Fleetcor, com sede em Norcross, Geórgia, de irregularidades. A empresa disse acreditar que suas taxas e práticas de faturamento estão de acordo com todas as leis e regulamentos.

"A maioria de nossos mais de 800.000 clientes empresariais está muito satisfeita com o valor que fornecemos, não há um período mínimo de contrato e eles escolhem consistentemente continuar usando os produtos e serviços da FleetCor, como fica evidenciado por nossas altas taxas de retenção", afirmou a empresa em comunicado. A FleetCor disse em outubro que sua taxa de retenção de clientes era de 92 por cento.

Desde 2014, os clientes da FleetCor apresentaram 366 queixas na Comissão Federal de Comércio dos EUA. Em comparação, a Wex, a principal concorrente da FleetCor nos EUA, que tem menos da metade de seu tamanho, foi denunciada 44 vezes. Em 2017, as queixas chamaram a atenção dos vendedores a descoberto, liderados por Andrew Left, da Citron Research, que considerou predatórias as práticas da FleetCor.

"Este é um modelo de negócios com a intenção de enganar", disse Left à Bloomberg na época.

--Com a colaboração de Jenny Surane.

Repórteres da matéria original: Anders Melin em N York, amelin3@bloomberg.net;Reade Pickert em N York, epickert@bloomberg.net