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Fed disfarça menção ao maior temor global: Bloomberg Opinion

Daniel Moss

31/01/2019 15h36

(Bloomberg) -- A China passou de impulsionadora do crescimento mundial a fonte de fragilidade. A resposta das autoridades ? principalmente de Pequim e do banco central americano ? provavelmente também será global.

O BC dos EUA (Federal Reserve) deu um grande passo neste sentido na quarta-feira, quando eliminou a preferência por subir os juros, citando as condições econômicas e financeiras mundiais e a diminuição das pressões de preços. A principal preocupação é a China, notadamente a fraqueza e a pressão deflacionária que o país asiático está exportando. A China não foi diretamente citada no comunicado do comitê de política monetária (FOMC), mas sua presença é óbvia.

Indicadores da indústria e do comércio mostram a deterioração, especialmente na Ásia, mas não exclusivamente por lá. Na quinta-feira, outro indicador da indústria na China voltou a apontar contração. O índice de sentimento dos empresários das fábricas da Coréia do Sul, divulgado no começo da semana, desabou.

Aparentemente, a reação, principalmente na arena monetária, será uma longa pausa ou inclinação à flexibilização por parte do Fed, Banco Central Europeu e Banco do Japão. Na China, foram implementadas aproximadamente 60 medidas de flexibilização desde o meio do ano passado, segundo levantamento da Cornerstone Macro.

Essas medidas almejam algum equilíbrio entre estímulo à atividade e sustentabilidade das dívidas. Ultimamente, as medidas de estímulo predominam ? e não são exclusivamente monetárias, abrangendo cortes de impostos e relaxamento do depósito compulsório das instituições de crédito.

Fora da China, é maior a atenção do mundo com as palavras dos bancos centrais sobre fatores "globais", o que parece ser um eufemismo para a China, maior economia da Ásia. O vocabulário do próprio Fed evoluiu. O FOMC abandonou a expressão "alguns aumentos graduais adicionais" em favor de meros "ajustes", mencionando antes disso a análise "à luz de desdobramentos econômicos e financeiros globais e pressões inflacionárias caladas".

É um grande contraste com o comunicado anterior do Fed que, em 19 de dezembro, afirmou que continuaria "monitorando (as condições) econômicas e financeiras globais". Em seis semanas, o fator evoluiu de algo passivo para algo que é quase uma frase de justificativa. E o que está sendo justificado é uma grande mudança: uma declaração de que cortes de juros são tão possíveis quanto acréscimos.

As fraternidades monetárias raramente se criticam abertamente ou acusam outros sócios do clube.

Brexit e Itália aparecem frequentemente nos comentários, mas como a China é responsável por aproximadamente 27 por cento do crescimento global, é fácil saber o que realmente importa.

Esses passos aparentemente não são parte de um acordo secreto. Não se trata de uma crise como a de 2008. As autoridades estão reagindo a preocupações compartilhadas.

Mas o mandato dos bancos centrais não é doméstico? Claro. Só que essas instituições entendem mais claramente que o que acontece na China impacta o comércio de seus países.

Os problemas da China podem reduzir o crescimento mundial para 2,3 por cento, segundo a Oxford Economics, o que seria o ritmo mais lento desde a crise financeira e dentro do que se considera recessão global. Para o Fundo Monetário Internacional, o limiar é 2,5 por cento.

Para se ter uma ideia, as últimas projeções do FMI são 3,5 por cento neste ano e 3,6 por cento em 2020. Estamos longe do precipício.

Seja qual for o modo de expressão dos bancos centrais, eles querem manter distância da beira do abismo.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.