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Clima obriga produtores argentinos a variar época de plantio

Jonathan Gilbert e Brian K. Sullivan

13/02/2019 16h50

(Bloomberg) -- Se você é um agricultor da Argentina, você acaba de passar pela pior seca em décadas, seguida por tempestades bíblicas.

Enquanto os EUA tiveram uma temporada de cultivo com um clima relativamente benigno em 2018, a América do Sul tem oscilado entre secas e dilúvios nos últimos dois anos, disse Kyle Tapley, meteorologista agrícola da Radiant Solutions em Gaithersburg, Maryland, nos EUA.

Agora, a Argentina, o terceiro maior produtor de soja e milho do mundo, está tomando medidas para proteger as plantações da mudança climática, culpada por grande parte das reviravoltas desse tempo louco.

Cientistas da Secretaria de Agricultura da Argentina se debruçaram sobre modelos climáticos para prever padrões climáticos nos pampas, onde grande parte das plantações do país é cultivada. O objetivo é desenvolver novos cronogramas de plantio para driblar o clima. Já houve uma conclusão importante: o clima vai ficar mais úmido.

"Há 80 por cento de chance de ter mais chuva", disse Adriana Basualdo, especialista em ciência atmosférica que liderou a pesquisa do governo, em um evento em que os resultados foram apresentados.

Secas e enchentes

Se estiver muito úmido durante o plantio, as máquinas ficam presas na lama e as sementes no solo podem literalmente se afogar. Uma plantação encharcada na colheita impede a coleta e estraga as plantas. Isto não é pouco para a Argentina, onde 19 por cento dos cerca de US$ 28 bilhões em exportações do país são de soja, milho e outros cereais não processados. Outros 28 por cento são produtos processados de oleaginosas.

A seca do ano passado enfraqueceu a economia da Argentina, representando uma parcela significativa da contração projetada de 2,4 por cento no produto interno bruto do país e encolhendo as exportações. A produção de soja, por exemplo, que é em grande parte exportada, caiu para 31,7 milhões de toneladas, contra 54 milhões de toneladas previstas originalmente, segundo a Bolsa de Grãos de Buenos Aires.

Antes e depois da seca ocorreram enchentes que provocaram bilhões de dólares em prejuízos para os agricultores. Uma vantagem das enchentes, no entanto, é que elas aumentam os rendimentos em campos mais altos que drenam bem. Isso explica a safra excepcional de 2017 e a safra recorde de milho prevista para este ano.

O secretário de Agricultura, Luis Miguel Etchevehere, observou que em sua província natal, Entre Rios, pode ser melhor plantar milho cedo, de modo que a tendência esperada de chuvas abundantes na primavera coincida com a floração e aumente a produtividade. Já para esta temporada, os analistas estão prevendo uma grande safra antecipada de milho por causa das condições úmidas.

Mudanças

Mais chuvas na Argentina podem aumentar os rendimentos, mas provavelmente provocarão mais doenças nos cultivos. Será especialmente ruim se toda a água cair em explosões repentinas, disse Andy Knepp, diretor de estratégia ambiental do departamento de ciências de cultivos da Bayer.

"Mudanças no clima vão apresentar desafios e oportunidades", disse Knepp. "Está ficando mais úmido em algumas áreas, mais seco em outras e mais quente em todos os lugares."

Na Argentina, o esforço dos cientistas para entender melhor como o clima está mudando é um primeiro passo necessário para um país dependente de commodities, de acordo com Santiago del Solar Dorrego, chefe de gabinete de Etchevehere. "Isso nos afasta da incerteza", disse ele.

Repórteres da matéria original: Jonathan Gilbert em Buenos Aires, jgilbert63@bloomberg.net;Brian K. Sullivan em Boston, bsullivan10@bloomberg.net