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Seca afeta plantações, mas soja brasileira mostra resiliência

Gerson Freitas Jr.

20/02/2019 17h19

(Bloomberg) -- Mesmo com a estiagem e o calor que assolou as plantações de Mato Grosso, o maior produtor de soja do país ainda pode colher uma safra recorde neste ano, refletindo, em boa medida, os investimentos para aumentar a fertilidade no campo.

O produtor Alexandre Di Domenico, que cultiva soja em 16 mil hectares no nordeste do Estado, acredita que o rendimento das suas lavouras pode crescer até 10 por cento nesta safra, para 3,6 toneladas por hectare, em média, mesmo após um período de 20 dias sem chuvas entre dezembro e janeiro.

"A gente mudou de patamar", disse Domenico, em conversa durante um encontro de com agricultores no município de Querência. A aplicação de doses mais elevadas de calcário no solo vem aumentando o potencial produtivo das lavouras, explicou. "Os produtores vêm de uma série de anos bons e investiram muito na melhoria do solo."

Em todo o mundo, as produtividades agrícolas vêm crescendo graças a avanços na tecnologia de sementes, defensivos e outros insumos. Safras abundantes têm ajudado a manter a inflação dos alimentos relativamente controlada, embora as mudanças climáticas tenham gerado riscos maiores com secas, calor e tempestades. No Brasil, as colheitas fartas das últimas safras também ajudaram a aumentar os lucros dos agricultores, permitindo que investissem mais em seus campos.

Itamar Dagnese, que cultiva soja em cerca de 2,3 mil hectares em Canarana, está colhendo uma média de 3,9 toneladas por hectare neste ano. Apesar de o rendimento ser 15 por cento superior à média recorde atingida pelo Brasil na safra passada, Dagnese não está totalmente satisfeito.

"Poderíamos estar produzindo 4,2 toneladas se não fosse pela seca", afirma Dagnese. "Estamos mais produtivos, mas os custos também estão subindo."

O clima adverso durante o verão prejudicou algumas lavouras mais do que outras, especialmente as cultivadas com variedades de ciclo mais curto. Com isso, a produtividade média do Estado tende a ser ligeiramente inferior à do ano passado, segundo André Debastiani, analista da Agroconsult.

Debastiani e um grupo de analistas e agrônomos percorreram, na semana passada, áreas de soja no leste de Mato Grosso, em um rali destinado a avaliar o potencial da nova safra. Segundo ele, o declínio no rendimento das lavouras deve ser mais do que compensado pelo aumento da área plantada. Com isso, a produção final pode alcançar a marca inédita de 33 milhões de toneladas, ante 32,3 milhões no ano passado.

"Os investimentos estão aumentando a resiliência das lavouras", disse Debastiani durante o rali. Apesar de as lavouras do Paraná e do Mato Grosso do Sul terem sido mais fortemente atingidas pelo calor, a produção nacional pode ficar acima de 115 milhões de toneladas neste ano, a segunda maior já registrada, disse. A estimativa oficial da Agroconsult para a safra 2018-19, que está sendo colhida, é de 116,5 milhões de toneladas.

"Apesar de todos os problemas, trata-se de uma safra grande."