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O que a classe média da China diz sobre Trump, comércio e futuro

Karen Leigh, Xiaoqing Pi e April Ma

28/02/2019 17h30

(Bloomberg) -- No momento em que os efeitos da desaceleração da China começavam a ser percebidos, milhões de famílias da classe média criada durante o boom do país se reuniam para o Ano-Novo Lunar, a fim de celebrar sua boa sorte e refletir sobre as nuvens de tempestade econômica que estão se formando sobre o país.

Para avaliar a situação deste grupo, do qual a China depende para elevar os gastos e reduzir uma dependência cada vez mais acidentada do comércio global, visitamos 12 cidades em nove províncias que representam um corte transversal da economia chinesa. Conversamos com 20 pessoas, incluindo gerentes de vendas, funcionários do governo e mais de uma dúzia de outros profissionais para perguntar-lhes o quanto a perspectiva sombria abalou seu otimismo. A resposta na maioria dos casos foi que ela não abalou.

De uma cidade siderúrgica na província de Gansu, no noroeste do país, ao centro de comércio exterior da província de Guangdong, no sul, a maioria das pessoas entrevistadas disse se sentir mais otimista do que há um ano, mesmo antes da recente recuperação do mercado de ações. Quase um terço classificou com a nota mais alta suas perspectivas para o próximo ano.

Mas, quando questionados sobre seus planos de gastos, perspectivas de emprego e aspirações familiares, surge um quadro mais complexo, em que rachaduras começam a aparecer e a cautela tornou-se um lema - um advogadoque está se saindo bem por causa de um aumento nos litígios imobiliários, uma professora que receia que seus alunos tenham dificuldade para encontrar trabalho, uma funcionária de uma empresa automobilística que passou a vender seguro de vida para uma população que está envelhecendo.

"A classe de renda média está se dividindo", disse Tao Dong, vice-presidente para a Grande China no Credit Suisse Private Banking em Hong Kong. Alguns "continuam subindo na cadeia de riqueza e estão dispostos a gastar, enquanto os outros estão moderando sua atitude de consumo".

Preocupações internas

Definir o grupo de renda média da China sempre foi um desafio. A mais recente estimativa oficial do governo inclui famílias que ganham apenas 100.000 yuans (US$ 14.900) por ano, um número baixo que amplia o grupo para mais de 400 milhões de indivíduos. Outros, que baseiam suas estimativas em riqueza acumulada, estimam o número em talvez um quarto disso.

Aqueles com quem conversamos tinham renda de cerca de 60.000 yuans a quase 500.000 yuans por ano, dependendo de onde moravam. Procuramos pessoas que tivessem pelo menos um carro e uma casa, além de dinheiro para gastar em itens de luxo e férias no exterior. Quase todos tinham formação universitária.

Suas preocupações mais comuns foram internas - resultados diretos da desaceleração econômica da China, causados pelo aumento dos custos, pela repressão do governo aos empréstimos para empresas e pela ameaça de queda dos preços dos imóveis. Apenas em dois casos as pessoas falaram sobre consequências da guerra comercial, sendo que uma observou que um amigo havia decidido não comprar um BMW fabricado nos EUA por causa das tarifas mais altas. A outra, uma mulher em Chongqing, cidade da região central, disse que, como o consumo doméstico já estava desacelerando, a guerra comercial poderia ser um gatilho que pioraria a situação.

Se a guerra comercial se prolongar, os efeitos dos custos mais altos podem repercutir em lojas e fábricas, afetando mais pessoas. Enquanto isso, os líderes chineses estão preocupados com os protestos contra a queda dos preços dos imóveis, calotes a empréstimos e um mercado de ações volátil, que registrou o pior desempenho do mundo em 2018 antes de se recuperar mais de 20 por cento neste ano. No mês passado, o presidente Xi Jinping convocou autoridades do alto escalão a Pequim para uma cúpula emergencial na qual ele advertiu que há muitos "riscos grandes" e que o "domínio de longo prazo" do Partido Comunista não estava garantido.