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Escândalo da Huawei pode envolver bilionário do Leste Europeu

Lenka Ponikelska e Krystof Chamonikolas

08/03/2019 14h56

(Bloomberg) -- Quando o bilionário checo Petr Kellner se uniu a uma delegação que incluía o presidente Milos Zeman com destino a Pequim, em 2014, seu objetivo era cavar mais fundo na mina de ouro da China. Mas o sucesso rentável de que ele desfrutou desde então pode acabar se transformando em uma dor de cabeça inesperada.

Kellner, a pessoa mais rica da antiga ala comunista da União Europeia e proprietário da PPF Group, pode descobrir que seu negócio chinês de empréstimos ao consumidor, que atualmente conta com mais de US$ 13 bilhões em ativos, será pego inadvertidamente no escândalo de espionagem relacionado à Huawei Technologies. O motivo é que as empresas de telefonia checas da PPF estão sob crescente pressão para evitar usar a gigante da tecnologia chinesa para desenvolver sua rede 5G, tornando o negócio chinês da Home Credit um possível alvo de retaliação.

"A posição da PPF na China é politicamente muito delicada porque sua existência no país depende completamente dos órgãos reguladores estatais", disse Martin Hala, especialista em políticas chinesas e chefe do think tank Sinopsis, com sede em Praga. "O acordo deles com a Huawei para a construção de redes 5G não é vinculante, mas a questão é qual seria o preço para eles se eles se retirassem."

A República Checa, assim como outros integrantes da Otan, tem estado sob uma pressão crescente do governo dos EUA, que está buscando vetar as empresas chinesas nos ramos das redes móveis 5G e dos veículos autônomos, entre outros mercados tecnológicos incipientes. A questão será um dos assuntos mais importantes quando o primeiro-ministro checo, Andrej Babis, se reunir com o presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington, na quinta-feira.

A Huawei rejeita todas as acusações e está tomando a iniciativa com uma ofensiva jurídica. A PPF, que possui ativos no setor de telecomunicações também na Hungria, na Bulgária, na Eslováquia, na Sérvia e em Montenegro, disse que cumpre todas as leis dos países nos quais opera. A empresa acrescentou, em comunicado enviado à Bloomberg, que nunca comenta "estratégia de negócios ou assuntos políticos".

Mel Carvill, integrante do conselho de administração da Home Credit, disse em entrevista à Seznam TV, em 22 de fevereiro, que a unidade está em "boa posição na China" e que não vê "nenhum sinal de ameaça" até o momento, mas advertiu que "sempre existe a possibilidade de danos colaterais" se as relações diplomáticas entre os dois países azedarem. Ele também destacou que a Home Credit também está se voltando para a Índia, que "será um grande motor de crescimento no futuro", e para o Sudeste Asiático.

Apesar de a empresa nunca ter sido alvo na China, "acho que você me acharia ingênuo se eu dissesse que ficará tudo bem se os países cortarem relações", disse Carvill.

As apostas no desenvolvimento do 5G, capaz de realizar transferências quase instantâneas de grandes pacotes de dados, não poderiam ser mais altas, disse Daniel Bagge, adido cibernético da embaixada da República Checa em Washington, e a proteção à segurança da tecnologia precisa ser "a mais robusta possível".

"Este será um passo importante que mudará a natureza de setores não apenas na República Checa, mas em escala global", disse Bagge, em entrevista. "Estamos basicamente falando de outra revolução industrial."

Repórteres da matéria original: Lenka Ponikelska em Praga, lponikelska1@bloomberg.net;Krystof Chamonikolas em Praga, kchamonikola@bloomberg.net