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Ricos dos EUA pagavam propina para filhos entrarem na faculdade

Erik Larson, John Gittelsohn e Sabrina Willmer

13/03/2019 15h34

(Bloomberg) -- Gordon R. Caplan, um dos melhores advogados de Nova York, estava preocupado em meados do ano passado porque não sabia se a filha conseguiria entrar na universidade que ele queria, a Universidade Cornell. Ele não queria para correr riscos, dizem os promotores federais.

Em 15 de junho de 2018, o advogado sênior de fusões e copresidente da Willkie Farr & Gallagher telefonou para William Singer, fundador de uma empresa de assessoria e cursinhos pré-universitários, que mais tarde se tornaria uma testemunha cooperativa em um enorme caso de subornos para ingressar em universidades, disseram investigadores do governo, em Boston, na terça-feira, em uma queixa-crime.

Singer, cuja empresa Edge College & Career Network, com sede na Califórnia, está no centro do suposto esquema, disse a Caplan que ele poderia burlar os exames ACT ou SAT da filha por apenas US$ 75.000 -- como muitas outras famílias ricas faziam com os filhos que queriam entrar nas universidades da Ivy League.

"Olha, eu estou particularmente interessado em trabalhar com vocês e ver o que é melhor para [minha filha]", disse Caplan, de acordo com a queixa-crime, que detalha a conversa interceptada em grampo autorizado pelo tribunal.

"Este é o gol de placa dos gols de placa", disse Singer.

"E funciona?", perguntou Caplan.

"Sempre", respondeu ele rindo, de acordo com o documento dos EUA.

Engano

Em centenas de páginas de apresentações detalhadas ao tribunal, os investigadores traçam um esquema descarado para os ricos e poderosos subornarem e entrarem nas melhores universidades dos EUA, entre elas Yale, Stanford, UCLA e Georgetown. Ao todo, segundo o governo, os clientes pagaram US$ 25 milhões em propinas a assessores e administradores das universidades de 2011 a 2018.

O primeiro passo crucial, disse Singer a Caplan, era que sua filha "fosse tonta" durante uma avaliação psicológica, para ser classificada como portadora de deficiência de aprendizado, disseram os investigadores. Isso garantiria uma extensão no teste ACT ou SAT, para que ela fizesse o exame mais tarde, durante dois dias, em vez de um, e em um ambiente individualizado. Segundo Caplan, tudo o que a família precisava fazer era viajar à Califórnia para que a prova pudesse ser feita em um lugar onde o "inspetor" corrupto de Singer garantiria que o teste tinha sido brilhante, disseram os EUA.

Filho esportista

Douglas Hodge, ex-CEO da Pacific Investment Management, usou o que Singer chamou de "porta lateral" para fazer um filho entrar na universidade: o recrutamento esportivo. As universidades dão uma vantagem a candidatos escolhidos pelos treinadores; muitas vezes, eles são admitidos com notas e pontuações mais baixas nas provas. Segundo a queixa, Hodge pagou US$ 475.000 em propinas por meio da empresa de cursinhos, de sua fundação e do Conselho de Esportes Femininos da Universidade do Sul da Califórnia.

Mas havia um problema: um dos filhos que queria entrar na universidade não praticava o esporte. Em janeiro de 2015, a esposa de Hodge enviou um e-mail para Singer. Ela disse que não tinha achado nenhuma foto do filho jogando futebol americano, embora ele estivesse se candidatando para jogar no time da USC. Então ela mandou uma do irmão dele, de acordo com a apresentação ao tribunal. Singer mandou a foto para um assessor de admissão da USC: "Veja abaixo -- tenho certeza de que também há uma jogando tênis. Os garotos são parecidos, então eu pensei que uma foto jogando futebol americano também ajudaria?"

Hodge, que se aposentou em 2017 depois de 28 anos na Pimco, preferiu não comentar quando contatado em seu celular, e disse: "Eu não posso falar agora."

Repórteres da matéria original: Erik Larson em N York, elarson4@bloomberg.net;John Gittelsohn em Los Angeles, johngitt@bloomberg.net;Sabrina Willmer em Boston, swillmer2@bloomberg.net