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Mulheres acusam Salesforce de ajudar site de tráfico sexual

Kartikay Mehrotra e Nico Grant

27/03/2019 09h14

(Bloomberg) -- Cinquenta mulheres que dizem ser sobreviventes de tráfico sexual praticado pelo agora extinto portal Backpage.com acusam a Salesforce.com de lucrar com os anúncios.

Na terça-feira, o grupo de mulheres entrou com um processo contra a Salesforce no tribunal estadual de São Francisco, alegando que a empresa do bilionário Marc Benioff deu suporte ao Backpage fornecendo ferramentas de banco de dados customizadas para vender e revender prostitutas para "cafetões, homens e traficantes que estavam subutilizando seus serviços de tráfico".

"A Salesforce conhecia o flagelo do tráfico sexual porque recorria à publicidade para tentar impedi-lo", segundo a denúncia. "Mas, ao mesmo tempo, esta empresa de capital aberto era, na verdade, uma das mais desonestas, preocupada apenas com seu lucro."

A Salesforce disse que leva as acusações a sério, mas se recusou a comentar sobre o processo. "Estamos profundamente comprometidos com o uso ético e humano de nossos produtos", disse uma porta-voz da Salesforce em comunicado.

Esta não é a primeira vez que a Salesforce gera polêmica por causa de sua decisão de fazer negócios com certos clientes. Em junho, mais de 650 funcionários da Salesforce assinaram uma carta pedindo que Benioff reavaliasse um contrato com a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, em razão das políticas de imigração da administração Trump na época, incluindo a que separava famílias detidas que cruzavam a fronteira com o México. Benioff se recusou a cancelar o contrato, argumentando que o software da Salesforce não estava sendo usado para perpetrar políticas polêmicas.

As 50 mulheres que apresentaram a denúncia na terça-feira, cada uma identificada apenas como Jane Doe, eram prostituídas em todos os Estados Unidos, como na área da Baía de São Francisco, Cincinnati, Ohio, Baltimore e Maryland, segundo o processo. Elas alegam que os serviços prestados pela Salesforce para o portal Backpage contribuíram para que fossem estupradas e abusadas.

Em 2013, quando o crescimento do Backpage estava estagnado, a Salesforce aceitou o portal como cliente e passou a fornecer ferramentas para ajudar a gerenciar seu "banco de dados de traficantes e cafetões", o que deu um novo impulso aos negócios do Backpage, segundo a denúncia. O processo inclui uma fatura da Salesforce para o Backpage emitida em dezembro de 2016.

A Salesforce, liderada pelo empresário politicamente ativo Benioff, sempre vendeu a imagem de uma empresa do bem por meio de suas ferramentas e atividades de filantropia corporativa. A empresa está colaborando com o patrocínio de um evento de combate ao tráfico humano em abril, e seu braço sem fins lucrativos identificou grupos que trabalharam nas linhas de frente do problema em 2017.

O presidente do Backpage declarou-se culpado em denúncias de lavagem de dinheiro e conspiração em três estados, três dias depois do portal ter sido permanentemente fechado em abril de 2018. O procurador-geral da Califórnia, Xavier Becerra, informou que Carl Ferrer concordou em cooperar com os promotores contra dois co-conspiradores e acionistas controladores. Ferrer pode ser condenado a até cinco anos de prisão.

A Salesforce cresceu rapidamente nos últimos 20 anos, com US$ 13 bilhões em receita anual no ano fiscal de 2019. A empresa conseguiu o feito tornando suas ferramentas atraentes para uma ampla gama de organizações, desde pequenas startups até as maiores corporações globais.

Repórteres da matéria original: Kartikay Mehrotra em São Francisco, kmehrotra2@bloomberg.net;Nico Grant em São Francisco, ngrant20@bloomberg.net