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Espanha vende vilarejos fantasmas por menos de US$ 100.000

Charlie Devereux

29/03/2019 11h57

(Bloomberg) -- A evolução demográfica deixou o interior da Espanha com centenas de vilarejos abandonados, onde são comuns histórias como a de Gustavo Iglesias.

Assim como outros moradores de Acorrada, na Galícia, Iglesias se mudou para uma cidade maior para trabalhar, deixando para trás uma aldeia com seis casas de pedra e dois armazéns de grãos. A família dele viveu ali por várias gerações, criando gado e plantando trigo, mas quando seu pai morreu, há cerca de 30 anos, o local ficou vazio e descuidado.

Iglesias ? hoje com 57 anos e oficial de segurança no porto de Burela, um centro pesqueiro na costa da Galícia ? se uniu a dois outros proprietários de terras em Acorrada para colocar o vilarejo à venda, em uma tentativa de dar vida nova ao lugar. Eles pedem apenas 85.000 euros (US$ 96.000).

"Queria que alguém comprasse e reformasse para que continuasse vivo", disse Iglesias.

O interior da Espanha está cravado de vilarejos abandonados que agora estão à venda. Para o governo do primeiro-ministro Pedro Sanchez, que colocou a reversão do êxodo da população rural como prioridade quando assumiu no ano passado, a medida pode ajudar a conter a desertificação antes que vire uma crise.a

"Precisamos estar cientes do inverno demográfico que ameaça grande parte do nosso território", disse ele durante uma conferência na terça-feira. "Metade dos municípios da Espanha tem menos de 1.000 habitantes e grande parte do nosso território corre risco de despopulação."

Aventureiros estrangeiros e empreendedores espanhóis são considerados parte da solução. A corretora de imóveis Aldeas Abandonadas vendeu aproximadamente 40 vilarejos no ano passado e os estrangeiros foram responsáveis por 90 por cento das transações. A corretora ganhou notoriedade quando a atriz Gwyneth Paltrow sugeriu em seu website que um dos vilarejos listados daria um belo presente de Natal.

"As pessoas estão vindo do mundo inteiro para comprar", disse o gerente Pepe Rodil, citando a culinária local ? polvo, mariscos e sopas com feijão, carne suína e chouriço ? como fator que atrai compradores.

A Espanha tem aproximadamente 1.500 vilarejos em situação de abandono, segundo Elvira Fafian, fundadora da corretora Aldeas Abandonadas. Os locais estão sendo colocados à venda porque os proprietários são obrigados por lei a cuidar dos imóveis e muitos não conseguem pagar.

A tendência de urbanização que esvazia áreas rurais pela Europa é dramática na Espanha, onde 53 por cento do território tem densidade populacional inferior a 12,5 habitantes por quilômetro quadrado ? uma das piores taxas da Europa Ocidental. A despopulação se tornou assunto na campanha para as eleições de abril. O partido Ciudadanos, de oposição, na semana passada propôs cortar impostos para municípios onde vivem menos de 8 pessoas por quilômetro quadrado.

A taxa de natalidade de 1,3 por cento que o país registrou em 2017 foi a segunda menor da União Europeia (atrás somente de Malta). A falta de jovens significa que não há gente para tomar o lugar dos idosos, nem empreendedores capazes de gerar empregos e incentivar a economia desses locais.

Madri, Barcelona e cidades menores na costa mediterrânea ainda não enfrentam os níveis de poluição, trânsito e infraestrutura sobrecarregada comuns nas grandes metrópoles, mas isso deve mudar.

"Muitos especialistas estimam que 70 por cento da população estará vivendo em megacidades em 2050", disse Isaura Leal, que foi comissária de despopulação rural. "Acreditamos que temos a capacidade de reverter esse processo. Ainda dá tempo."

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