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Empréstimo para empresa de hackers preocupa Wall Street

Davide Scigliuzzo

10/04/2019 12h26

(Bloomberg) -- Ajudou o México a rastrear El Chapo, mas também foi acusada de auxiliar a Arábia Saudita a espionar dissidentes.

Agora chamada de NSO, a empresa que oferece serviços de hackers para agências de inteligência se tornou uma dor de cabeça para dois bancos de Wall Street que ajudaram a financiar a compra do grupo com sede em Israel no mês passado. Depois de muito esforço para encontrarem interessados em tomar empréstimo de US$ 500 milhões, o Jefferies Financial e o Credit Suisse tiveram que injetar dinheiro no negócio e agora estão se desfazendo da dívida com um alto desconto, segundo pessoas com conhecimento do assunto.

Os bancos acabaram assumindo o empréstimo depois que o produto de maior destaque da NSO passou a chamar a atenção de autoridades: uma ferramenta para hackear smartphones conhecida como Pegasus que ajudou a empresa a ganhar centenas de milhões de dólares com a venda de licenças para governos estrangeiros e agências de inteligência. Nas últimas semanas, a NSO tem procurado se defender de acusações de que o Pegasus está sendo usado por países para espionar dissidentes: um cidadão saudita afirma que o software permitiu que o governo do país monitorasse suas comunicações com o jornalista assassinado Jamal Khashoggi.

"Não passamos dos estágios iniciais de análise devido aos nossos requisitos de ESG", disse Azhar Hussain, chefe de alto rendimento global da Royal London Asset Management, referindo-se à sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança usados para rastrear potenciais investimentos. "Não seria a seleção de crédito ideal para nosso portfólio, considerando a cobertura negativa da mídia e a natureza do que a empresa faz."

No final, os bancos parecem ter encontrado investidores suficientes para fechar o negócio oferecendo um dos maiores descontos para o mercado de empréstimos nos últimos anos.

Depois de procurar interessados por um mês, o Jefferies fez uma série de mudanças favoráveis aos investidores na estrutura do empréstimo, como a redução do preço para 90 centavos de dólar, abaixo da proposta inicial de 98 centavos. O empréstimo deverá ser alocado na terça-feira. Algumas empresas que administram empréstimos com garantias e que concederam financiamento para a empresa no passado estão entre as interessadas no novo acordo, disseram as pessoas, que pediram para não serem identificadas porque as conversas são confidenciais.

Jefferies e Credit Suisse não quiseram comentar.

Em dezembro, Omar Abdulaziz, um crítico da Arábia Saudita que mora no Canadá, entrou com um processo contra a NSO em Israel, alegando que o software da empresa permitiu ao país hackear seu telefone e rastrear sua comunicação com Khashoggi. Essas mensagens, de acordo com o processo, contribuíram para a decisão de assinar Khashoggi.

Shalev Hulio, cofundador e diretor-presidente da NSO, disse que a tecnologia da empresa não foi usada para investigar Khashoggi ou seus parentes e que a NSO identificou apenas três casos de uso indevido desde o início de suas operações.

Fundada em 2010, a NSO vende seus produtos exclusivamente para agências de inteligência e combate ao crime, segundo o site da empresa. O software da NSO é usado por países como o México e o Brasil, e a companhia diz que apoia as prioridades de segurança nacional de Israel, dos EUA e da Europa.

--Com a colaboração de Laura Benitez, Sally Bakewell, Jeannine Amodeo, Lara Wieczezynski, Ruth McGavin e Yaacov Benmeleh.

Para contatar o editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net