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Genebra passa por teste de encanto com fim de sigilo bancário

Catherine Bosley

16/05/2019 11h43

(Bloomberg) -- Próximo à rue du Rhone, que concentra as lojas de luxo de Genebra, há um prédio de seis andares vazio. Antes sede de um banco privado, agora sua porta de bronze está fechada e o revestimento de mármore rachado.

A propriedade remete a uma época quando milionários que depositavam dinheiro em contas clandestinas tinham uma linha direta com Genebra. Embora a cidade tenha se recuperado do fim do sigilo dos bancos, cujo número encolheu cerca de 25%, Genebra enfrenta questões sobre seu poder de encanto para multinacionais e abastados ao redor do mundo.

Não foi a cidade escolhida como sede por empresas como Netflix, Alibaba e Amazon.com para suas operações na Europa. Genebra, cercada pelos Alpes e montanhas do Jura e com vista para o Mont Blanc, ainda exibe seus resplandecentes hotéis de referência, mas estes não desfrutam do mesmo movimento de outrora, com a chegada de ricos hóspedes árabes a cada verão. Os blocos de apartamentos mais distantes das décadas de 1960 e 1970 parecem precisar de um rejuvenescimento facial, e o histórico prédio das Nações Unidas, da década de 1930, pede uma reforma.

"Às vezes, tenho a sensação de que não temos fome o suficiente", disse Thierry Lavalley, gerente-geral do Grand Hotel Kempinski Geneve, localizado em frente ao lago. Talvez por causa do alto padrão de vida da cidade, "temos a impressão de que pouca coisa pode acontecer conosco - vamos superar independentemente do que aconteça, porque somos a Suíça".

Essa complacência será testada novamente em 19 de maio, quando os suíços decidem em referendo sobre a manutenção ou não de incentivos fiscais especiais que atualmente somente multinacionais podem desfrutar, enquanto cantões propõem suas próprias alíquotas de imposto corporativo mais baixas. O cantão de Genebra - sede do tradicional setor de private banking, que administra centenas de bilhões de dólares em ativos, e um dos principais centros globais de comércio de petróleo - tem promovido a maior redução de imposto corporativo. Com o referendo, a Suíça cumpria as regras internacionais para evitar a evasão fiscal de empresas, ao mesmo tempo em que evitaria a fuga de empresários para a Irlanda ou Cingapura, fiscalmente atraentes.

O referendo também vai decidir sobre uma medida que pode colocar em risco a participação do país no Acordo de Schengen, um espaço sem fronteiras. O item sobre controle de armas busca alinhar a Suíça com seus vizinhos europeus. Embora não seja membro da União Europeia, a Suíça concordou em adotar elementos da legislação da UE para participar do Acordo de Schengen. Rejeitar a reforma sobre a posse de armas poderia catapultar o país para fora do acordo do qual faz parte desde 2008.

A expulsão do espaço Schengen seria um sério golpe para Genebra, que faz fronteira direta com a França. Cerca de 84 mil pessoas atravessam a fronteira diariamente para trabalhar no cantão de 500 mil habitantes. Isso também tornaria o país menos atraente para muitos visitantes estrangeiros que precisariam de um visto para entrar na Suíça.

--Com a colaboração de Hugo Miller, Dylan Griffiths e Andy Hoffman.