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Sem chuvas, cafeicultores já não contam com supersafra no Brasil

Marvin G. Perez, Fabiana Batista e Isis Almeida

25/09/2019 16h05

(Bloomberg) -- Investidores abalados pela desvalorização dos preços do café experimentam certo alívio quando olham para o Brasil, onde o clima desfavorável pesa sobre as previsões da safra e alimenta a expectativa de um déficit global maior do que o esperado na próxima temporada.

Há apenas alguns meses, analistas previam outra safra recorde no Brasil, com os futuros sendo negociados perto do menor nível em 13 anos em Nova York. Mas uma frente fria foi seguida por um clima mais seco do que o normal, levando a uma projeção de menor oferta e alta de 13% dos preços em relação às mínimas vistas em maio.

Em entrevista durante a Cúpula das Américas do Financial Times, no Rio de Janeiro, João Alberto Brando, diretor da P&A, disse que, há dois meses, havia expectativa de uma colheita gigante para o próximo ano, mas que hoje essa convicção não existe mais.

O Brasil produziu quase 62 milhões de sacas em 2018, e estimativas anteriores de 70 milhões de sacas em 2020 foram revisadas. Para esta temporada, a Conab projeta produção de 49 milhões de sacas comparada à estimativa anterior de 50,9 milhões.

Áreas dos estados de Minas Gerais e São Paulo registraram apenas 50% da precipitação normal no mês passado. Isso depois de a florada em cerca de 40% dos cafezais ter sido afetada pelo clima seco, o que deve ter danificado cerca 20% das flores em algumas partes, disse Drew Lerner, presidente da World Weather, em Overland Park, Kansas.

Chuvas consistentes são necessárias para que as flores se fixem nos cafeeiros e depois se transformem nos frutos que carregam os grãos, disse.

José Marcos R. Magalhães, presidente da Minasul, disse que seriam necessários mais de 50 milímetros de chuva, mas esse volume não está nas previsões. A cooperativa comercializa grãos de arábica em Minas Gerais.

A pequena florada de agosto não deve ajudar a colheita, pois os grãos vão amadurecer em um clima instável, disse Magalhães em entrevista durante a conferência no Rio. Em sua fazenda, Magalhães calcula uma colheita menor do que em 2018, mesmo tendo aumentado a área plantada em 50 hectares.

Os preços baixos prejudicam muitos dos membros da Minasul, já que cerca de 30% da oferta vem de cafezais nas montanhas, onde agricultores tentam cobrir os custos. Para outros, a alta do dólar ajuda a compensar os menores preços. Ainda assim, cafeicultores têm segurado as vendas da colheita do ano que vem à espera de uma recuperação das cotações, disse Magalhães.

Carlos Mera, analista do Rabobank International em Londres, disse por e-mail que, embora um bom volume de chuvas seja esperado para esta semana, o clima seco deve atingir as principais áreas de arábica na semana que vem.

O clima desfavorável não atinge apenas o Brasil.

Partes do centro e sudoeste da Colômbia, o segundo maior produtor de arábica, registraram apenas 25% da precipitação normal no mês até 20 de setembro. Ao mesmo tempo, as chuvas contínuas esperadas na próxima semana podem não ter a intensidade necessária para as culturas afetadas, disse Lerner, do World Weather. Regiões em Honduras e Nicarágua registraram apenas 25% da precipitação média no mês passado, o que pode atrasar a evolução da safra.

Ernesto Alvarez, diretor da Coex Coffee, em Miami, disse por e-mail que a megasafra prevista para 20/21 agora foi comprometida pela geada, floração precoce e falta de cuidados. Segundo ele, se a produção brasileira for inferior a 60 milhões de sacas no próximo ano, isso poderia criar um grande problema de fornecimento.

--Com a colaboração de Luiza Ferraz.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Marvin G. Perez em Nova York, mperez71@bloomberg.net;Fabiana Batista em Sao Paulo, fbatista6@bloomberg.net;Isis Almeida em Londres, ialmeida3@bloomberg.net