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Setor de turismo se prepara para coronavírus gerar impacto pior do que SARS

Coronavírus liga alerta pelo mundo

K. Oanh Ha

Da Bloomberg

31/01/2020 12h05

Hotéis, lojas de luxo e atrações ao redor do mundo que contam com uma enxurrada de turistas chineses enfrentam uma crise ainda maior do que a causada pela SARS, pois o novo surto viral já infectou mais pessoas do que a pandemia de 2003.

De Tóquio a Londres, hotéis, cassinos, companhias aéreas e varejistas já notam uma desaceleração e se preparam para semanas, ou meses, de gastos em queda, depois que a China restringiu viagens para sair do país e governos aumentaram os controles nas fronteiras.

Cerca de 163 milhões de turistas chineses viajaram ao exterior em 2018 - mais pessoas que a população da Rússia -, representando mais de 30% das vendas do varejo de viagens em todo o mundo. Em 2003, quando a SARS surgiu, apenas 20 milhões de chineses viajaram ao exterior.

A crescente renda e consumo na China desde a SARS tornaram muitas cidades internacionais, marcas de luxo e segmentos do varejo mais dependentes do que nunca dos turistas chineses.

"É um golpe triplo - os chineses viajam mais, gastam mais e compram mais produtos de beleza", disse Stephanie Wissink, analista de consumo da Jefferies, que publicou recentemente um relatório sobre o impacto do vírus nos gastos com viagens. Turistas chineses "são os clientes mais significativos e mais importantes para o crescimento no setor de varejo de viagens".

O vírus traz um novo nível de incerteza a uma indústria global que já sofria os efeitos da desaceleração econômica da China.

"A referência com a qual todos estão comparando isso é a SARS em 2003", disse Luya You, analista de transporte da Bocom International, em Hong Kong. "O custo real e o impacto negativo desse vírus podem ser maiores, porque mais chineses viajam do que antes. O custo de impedir viagens e suspender voos é muito maior do que em 2003."

Turistas chineses gastaram US$ 150 bilhões em compras durante o feriado do Ano Novo Lunar do ano passado, de acordo com a Jefferies. O setor de varejo de viagens, um segmento que inclui lojas duty-free e varejo em aeroportos e outros centros de transporte, movimentou US$ 79 bilhões em 2018 e registrou o maior crescimento na Ásia, segundo a empresa de pesquisa Generation Research.

Pouco antes do feriado do Ano Novo Lunar deste ano, quando centenas de milhões de pessoas na China visitam a família ou tiram férias, autoridades bloquearam Wuhan, a cidade de 11 milhões de pessoas onde o vírus teria se originado. As viagens foram restringidas em grande parte da província de Hubei, que possui cerca de 50 milhões de habitantes.

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Companhias aéreas, como British Airways, Cathay Pacific Airways, Delta Air Lines e American Airlines, cancelaram ou reduziram voos de ida e volta para a China. Carnival e Royal Caribbean Cruises suspenderam cruzeiros que partem da China.

"Quando as companhias aéreas reduzem voos, isso afeta os portos de entrada que afetam não apenas aeroportos e lojas, mas também núcleos vizinhos", disse Wissink, da Jefferies. "É um ecossistema inteiro sendo interrompido, com muitos efeitos colaterais."

Duas das cidades mais atingidas são Hong Kong e Macau.

As lojas e hotéis de Hong Kong já haviam sido abaladas por meses de distúrbios que afastaram turistas e empurraram a economia para uma recessão. O vírus é mais um golpe contra as importantes vendas do varejo e turismo de visitantes da China continental que chegam ao território com malas vazias para enchê-las com produtos de luxo e bens de consumo.

Em Macau, centro dos jogos de azar da China, as novas restrições de viagens e o crescente medo de multidões reduziram o número de visitantes vindos da China continental em 83% até o momento no feriado do Ano Novo Lunar deste ano.

No Japão, o vírus de Wuhan pode ser um obstáculo para o objetivo do primeiro-ministro Shinzo Abe de atrair 40 milhões visitantes este ano, já que o país vai sediar os Jogos Olímpicos.

"O setor de turismo do Japão, como muitos na região, pode ser atingido pela suspensão da venda de pacotes turísticos pela China na tentativa de conter a propagação do novo coronavírus", disse o economista da Bloomberg Yuki Masujima. Se a indústria do turismo no Japão for afetada na mesma medida da pandemia da SARS, o custo para a economia do país poderia chegar a cerca de 611 bilhões de ienes (US$ 5,6 bilhões), disse.