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Ganância e medo colidem: Wall Street quer que traders retornem

Michelle Davis, Max Abelson e Donal Griffin

07/04/2020 15h44

(Bloomberg) -- Em 2 de abril, o dia em que os casos de coronavírus no mundo todo atingiram 1 milhão, gerentes do JPMorgan Chase enviavam por e-mail os novos planos para as equipes dos pregões na região de Nova York em meio à pandemia.

Um funcionário da equipe de vendas notou que um colega não constava na lista e perguntou onde estava.

"Corona Town, U.S.A.," a pessoa respondeu. Então um dos líderes de trading de crédito do banco, Nicholas Adragna, escreveu: "A mesa de trading estará no escritório, a menos que tenham uma doença com atestado médico."

Mais de 100 funcionários estavam no grupo de mensagem visto pela Bloomberg, e alguns ficaram horrorizados. Isso ocorreu logo após um surto de Covid-19 na sede do JPMorgan na Madison Avenue, no qual pelo menos 16 pessoas testaram positivo em um único pregão. Alguns funcionários reclamam que têm recebido mensagens conflitantes de gerentes de nível médio e sênior sobre a presença nos escritórios, onde bilhões de dólares estão em jogo, e dizem que preferem seguir os conselhos de autoridades do governo para ficar em casa.

"Afirmamos muitas vezes que quem não se sentir confortável de ir ao escritório não precisa fazê-lo", disse Brian Marchiony, porta-voz do JPMorgan. "Nunca tivemos uma política que exigisse ou até solicitasse um atestado médico."

Essas tensões não se limitam ao JPMorgan. Embora firmas de Wall Street tenham dito à maioria dos funcionários para trabalhar remotamente, vários traders e banqueiros que estão em casa dizem ter recebido telefonemas e mensagens de gerentes pedindo que retornassem aos escritórios, alguns dos quais recentemente viram pessoas contagiadas.

Pequenas e grandes empresas tentam manter funcionários suficientes nas mesas para garantir negociações rápidas. É a versão do setor financeiro de um problema que se espalha pelos EUA, onde trabalhadores "essenciais" sentem que precisam escolher entre manter o emprego e arriscar suas vidas.

Mesas de trading

Alguns bancos de investimento divulgaram até que ponto são capazes de permitir que funcionários trabalhem remotamente. O Goldman Sachs disse recentemente que apenas um em cada 50 funcionários trabalha no escritório. Porém, a maioria das divisões de trading exige mais funcionários em terminais de alta velocidade dos escritórios para lidar com o dilúvio de pedidos de clientes em meio às oscilações dos mercados. O Bank of America afirmou ter cerca de um em cada 20 funcionários de trading no escritório. No JPMorgan, a proporção é de um em cada cinco nas mesas de trading.

No mesmo momento em que os executivos de trading de títulos do JPMorgan trocavam e-mails, Jason Sippel, chefe global de trading de ações do banco, realizava uma teleconferência com subordinados. Ele disse que a divisão de trading não é tão eficaz quando muitos trabalham remotamente, mas que está tentando respeitar a situação os funcionários, de acordo com uma pessoa que ouviu a ligação.

Ainda assim, a situação em Wall Street contrasta com a pressão sobre caixas e equipes de call center que atendem clientes de bancos na área comercial, mesmo que ganhem menos. E, fora do setor financeiro, a situação é ainda mais difícil. Cerca de 10 milhões de pessoas pediram seguro-desemprego em apenas duas semanas, enquanto trabalhadores de empresas como Amazon.com se queixam sobre condições de segurança.

É fato que há muito tempo traders precisam ir ao trabalho mesmo estando doentes, mas, nas últimas semanas, essa atitude mudou quando a mídia passou a mostrar caminhões refrigerados do lado de fora de hospitais de Nova York, hospitais de campanha no Central Park e autoridades de saúde pública pedindo às pessoas que fiquem em casa.

©2020 Bloomberg L.P.