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Covid se espalha rápido porque bilhões sofrem com falta de água

Heesu Lee

10/08/2020 18h40

(Bloomberg) -- Uma grave escassez de água no uso doméstico que atinge duas em cada cinco pessoas no mundo está minando os esforços para conter a pandemia do coronavírus.

A lavagem frequente e completa das mãos está entre as medidas mais eficazes para restringir a propagação do vírus, porque as principais vias de transmissão são as gotículas e o contato direto, de acordo com o Organização Mundial da Saúde. No entanto, cerca de 3 bilhões de pessoas não têm acesso à água corrente e ao sabão em casa, e 4 bilhões sofrem de grave escassez de água por pelo menos um mês por ano, disse o grupo UN-Water das Nações Unidas.

"É uma situação desastrosa para as pessoas que vivem sem acesso à água potável e ao saneamento gerenciado de forma segura", disse o presidente do UN-Water, Gilbert F. Houngbo, em entrevista. "O subinvestimento crônico deixou bilhões de pessoas vulneráveis e agora estamos vendo as consequências."

Anos de investimentos adiados em água potável e saneamento agora colocam todos em risco, pois o vírus se espalha por nações desenvolvidas e em desenvolvimento, gerando um ciclo de infecção e reinfecção.

O mundo precisa gastar US$ 6,7 trilhões em infraestrutura hídrica até 2030, de acordo com a ONU, não apenas para as necessidades urgentes de saneamento, mas para enfrentar as questões de longo prazo da pandemia, como fornecer melhor irrigação para evitar uma potencial crise alimentar, disse Houngbo.

Algumas empresas entraram em cena para oferecer soluções para os problemas mais urgentes. O Lixil Group Corp. do Japão, que possui marcas como American Standard e Grohe, trabalhou com a Unicef e outros parceiros para criar um dispositivo de lavagem das mãos que precisa apenas de uma pequena quantidade de água em uma garrafa. Por US$ 1 milhão, fará 500.000 unidades na Índia que serão doadas para 2,5 milhões de pessoas, antes de iniciar as vendas no varejo.

É uma resposta rápida e de curto prazo para ajudar a combater a pandemia, mas são necessários mais investimentos sustentáveis, como a instalação de água encanada em mais casas, disse Clarissa Brocklehurst, membro do corpo docente do Instituto da Água da Universidade da Carolina do Norte e ex-chefe de água, saneamento e higiene da Unicef.

Desigualdades de Água

A falta de acesso à água e ao saneamento básico é mais um exemplo dos efeitos letais da desigualdade expostos pela pandemia. Os impactos da má gestão da água são sentidos desproporcionalmente pelas pessoas de baixa renda, que são mais propensas a depender da agricultura de sequeiro para alimentação e estão mais expostas à água contaminada e ao saneamento inadequado, disse o Banco Mundial.

As pessoas desfavorecidas nas cidades são particularmente vulneráveis, pois muitas vezes vivem em áreas densamente povoadas onde o distanciamento social é difícil e especialmente se tiverem de compartilhar uma fonte de água. A transmissão nas Américas tem sido mais difícil de conter em áreas urbanas pobres que têm acesso limitado à água, ao saneamento e aos serviços de saúde pública, disse Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde.

Uma estimativa aponta que até 5,7 bilhões de pessoas devem viver, até 2050, em áreas onde a água é escassa por pelo menos um mês por ano, criando uma competição sem precedentes pela água, disse Houngbo. Cada grau de aquecimento global irá expor cerca de 7% da população mundial a uma diminuição dos recursos hídricos renováveis de pelo menos 20%. Limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius, em comparação com 2 graus, pode reduzir esse estresse hídrico induzido pelo clima em até 50%.

©2020 Bloomberg L.P.