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Ciudad del Carmen, um reflexo sombrio no México da crise petrolífera mundial

Edgar Ávila.

Ciudad del Carmen (México), 29 abr (EFE).- Uma ponte de três quilômetros inacabada, navios encalhados, milhares de empregos perdidos e dezenas de negócios fechados são a marca da crise petrolífera mundial na mexicana Ciudad del Carmen, antigo símbolo do poderio energético do país no Golfo do México.

No acesso à Sonda de Campeche, onde a outrora toda-poderosa empresa estatal Petróleos Mexicanos (Pemex) retira 70% do petróleo e gás produzido no país, o impacto pela queda dos preços dos produtos no mercado internacional afetou todos de maneira igual.

Prestadores de serviços, membros do setor hoteleiro, donos de restaurantes e bares, taxistas e até mesmo vendedores de rua. Ninguém se livra do drama, como pôde constatar a Agência Efe em visita ao município do estado de Campeche, fundado em 1717, antigo refúgio de piratas, reduto militar e até uma prisão.

A suspensão dos trabalhos de exploração e perfuração de novos poços, além do cancelamento de contratos de empresas que mantêm sem operar 73 plataformas privadas e públicas, visíveis desde o litoral a muitos quilômetros mar adentro, atingidas pelo vento e abandono.

Do total, 65 eram alugadas pelo setor privado da Pemex, enquanto as oito restantes pertenciam à empresa estatal, símbolo do nacionalismo mexicano desde a desapropriação petrolífera do general Lázaro Cárdenas em 1938.

"Há anos nos dedicávamos à indústria pesqueira e decidimos abrir um restante, mas hoje em dia nos afetou terrivelmente. Cerca de 60% das vendas caíram", afirma Pedro Pablo Cajún, sócio da Mariscos Pablos, fundada há 25 anos.

Esse restaurante familiar, situado em plena orla, era frequentado regularmente por diretores e funcionários das empresas que hoje em dia não mais estão na região. Por isso, o empresário teve que demitir dez pessoas.

"Muitas empresas fecharam e as que não fecharam cortaram muito o pessoal. As pessoas não vêm à Carmen para fazer nada, porque não há nada", lamenta Cajún.

Fontes do setor garantem que 25.500 pessoas trabalhavam em Sonda de Campeche. Em abril desde ano, porém, apenas 16.626 permaneciam nos seus empregos. Só a Pemex cortou 5.500 vagas no ano passado e outras 4.083 neste ano.

"É uma das crises mais complicadas que tivemos no setor, não só de Ciudad del Carmen, nem do país, mas em nível mundial", explica à Efe Luis Fernando Rueda Flores, da Corporativa Industrial e Comercial, que oferece serviços de logística terrestre a Pemex.

Os empresários locais pediram ao governo incentivos fiscais e ajuda às companhias estrangeiras vencedoras da recente Rodada 1, que licitou 109 blocos de contratos de exploração e extração de hidrocarbonetos em águas superficiais.

A Rodada 1 faz parte da reforma energética proposta pelo presidente Enrique Peña Nieto para abrir o negócio ao setor privado e modernizar a Pemex, cujas perdas em 2015 subiram para US$ 30 bilhões. A dívida cresceu para US$ 87 milhões e US$ 190 milhões.

Flores reconhece que no outro extremo do Golfo do México, em Houston (Texas, EUA), há empresas e escritórios de sobra, mas considera que, no caso mexicano, valeriam a pena medidas de apoio mais eficientes para a Pemex reagir "com mais velocidade".

Se somados os empregos diretos e indiretos, houve 35 mil demissões em Ciudad del Carmen, de acordo com Javier Hurtado, proprietário de empresas de serviços de consultoria e capacitação.

Anúncios de "aluga-se" ou "vende-se" se espalham em navios industriais e complexos de imóveis. Quartos que tinham diária de US$ 40 agora são negociados a US$ 9.

O orçamento público para Sonda de Campeche passou de US$ 6,38 bilhões em 2014 para US$ 4,3 bilhões em 2016.

Das 16 embarcações de transportes de pessoas em direção às plataformas de petróleo que havia no ano passado, só dez estão sendo atualmente usadas e para um menor número de deslocamentos. Já os helicópteros utilizados para levar diretores e engenheiros passaram de 35 para 20.

Uma ponta de US$ 70 milhões que ia unir a Ciudad del Carmen com Campache para suprir outra plataforma, chamada La Unidad, permanece inacabada.

"Sem dúvida é tempo de mudanças, mas devemos saber nos adaptar, é só temporário, uma sequência, não podemos parar todos os negócios", disse Nely Sánchez, da Corporativa Capital Holding.

Além de vantagens tributárias, Sánchez pede às autoridades para construir infraestruturas turísticas na região para resistir à crise, em uma cidade que descobriu o "ouro negro" há menos de meio século após viver décadas da pesca de camarão.

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