Panama Papers mostra caminho para o futuro do jornalismo de investigação

Jairo Mejía.

Washington, 13 mai (EFE).- Com auxílio de ferramentas digitais para permitir a colaboração de 400 profissionais de todo o mundo, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) conseguiu revelar ao mundo o escândalo dos Panama Papers, o maior vazamento da história da imprensa.

Há menos de um ano, 40 jornalistas se reuniram em segredo em uma sala do Clube Nacional de Imprensa, a poucos metros da Casa Branca, para falar sobre John Doe, pseudônimo usado por uma fonte que garantia ter informações de alcance mundial para apresentar a dois repórteres do jornal alemão "Süddeustsche Zeitung".

A dupla tinha em mãos mais de 11,5 milhões de documentos, muitos deles fotocópias ou digitalizados, e 2,6 terabytes de informações. Por isso, recorreram ao ICIJ, um órgão com sede em Washington que fornece ferramentas para impulsionar o jornalismo de investigação a sua rede de sócios.

"Há um maior entendimento de jornalistas de todo mundo que você pode ter uma notícia exclusiva, mas que ela pode se tornar mais valiosa e global se houver colaboração", explicou Will Fitzgibbon, coordenador do ICIJ, em entrevista coletiva no Clube Nacional de Imprensa na capital americana.

O ICIJ organizou jornalistas de todo mundo, desde o "Süddeustsche Zeitung" ao jornal francês "Le Monde", com o desenvolvimento de tecnologias de análises de dados, software para detalhar conexões entre empresas e pessoas, além de uma "redação virtual", na qual equipes de repórteres de todo mundo entregavam seus trabalhos.

"É crucial que o jornalismo crie sua própria tecnologia para trabalhar dados. Vimos como engenheiros ou analistas de dados passavam a assumir o papel de jornalistas. Esse tipo de conhecimento é essencial nas redações", afirmou a subdiretora do ICIJ, a jornalista argentina Marina Walker.

Walker considera que o jornalismo de investigação passa por mais colaboração entre profissionais de todo mundo, um modelo que já é aplicado por agências de segurança estatal, pesquisadores, economistas e, inclusive, organizações criminosas.

"É um modelo extremamente eficiente. Os jornalistas estavam atrasados, focados no modelo do lobo solitário. Os Panama Papers mostraram o potencial e o poder da colaboração dos jornalistas, que pode mudar o setor e servir para qualquer tema", afirmou.

Kevin Hall, correspondente do conglomerado de jornais "McClatchy", lembrou como um jornalista suíço descobriu que a busca de passaportes na base de dados criada para os Panama Papers poderia ser agilizada se os repórteres procurassem por uma série de dígitos concreta, o que permitira a classificação por países.

"Tínhamos diante de nós a história de nossas vidas, o que todos esperamos em nossas carreiras", declarou Walker, jornalista investigativa argentina com duas décadas de experiência.

Os Panamá Papers expuseram um complexo sistema de offshores para sonegar impostos e ocultar fortunas criado pelo Mossack Fonseca, escritório de advocacia panamenho vítima do vazamento.

Mais de 140 chefes de Estado e políticos aparecem nos documentos submetidos à apuração dos parceiros dos ICIJ. Dezenas de investigações foram abertas pela revelação do escândalo e reformas legais foram iniciadas para evitar a ocultação de capitais.

"Após tudo isso, há razões para estar esperançoso, mas também desencantado", indicou Fitzgibbon, que, apesar das mudanças, reconhece que muitos sonegadores estão buscando modos de escapar da fiscalização dos governos e da opinião pública, mas agora com mais cautela.

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